Jardins

Descubra a Mata-Jardim José do Canto, nos Açores

Mata-Jardim

Mata-Jardim José do Canto – margem sul da Lagoa das Furnas.

 

“É perto das Furnas, e junto a um lago encantador, que está situada uma das melhores propriedades do Sr. José do Canto, que, apesar de não estar na ilha, ainda assim empregou todos os meios para que esta nossa visita nos fosse tão agradável como instrutiva. É imensa esta propriedade, quase toda montanhosa. Dois dias nos foram necessários para podermos percorrer-lhe os pontos principais.”
(Goeze, 1867: 33-34).

A Mata-Jardim José do Canto, quando o botânico alemão Edmond Goeze a visitou em 1866, ocupava uma área de cerca de 600 ha. Era o maior campo de aclimatação de espécies exóticas em São Miguel e talvez em todo o território de Portugal. Após a morte do seu fundador a enorme propriedade foi dividida pelos herdeiros. Mesmo assim, após o processo de partilhas, a Mata-Jardim continua a cobrir 120 ha a sul da Lagoa das Furnas. A secção ajardinada, com aproximadamente 10 ha, localiza-se rente à lagoa. O bosque trepa vertente acima, denso, quase impenetrável.

Capela de Nossa Senhora das Vitórias.

 

História

A Mata-Jardim foi “desenhada e plantada nos meados do séc. XIX, segundo o plano dos paisagistas franceses Barillet-Deschamps e George Aumont. Deste traçado percebem-se os arruamentos de curvas largas, interceptadas em amplos largos e conduzindo a pontos de interesse ou às construções existentes.”

Estas são a Capela de Nossa Senhora das Vitórias, edificada entre 1877 e 1888, onde estão sepultados José do Canto e sua mulher Maria Guilhermina, o “antigo pavilhão dos barcos, uma construção inspirada nos modelos da arquitectura nórdica (anglo-flamenga),” e o chalé projetado por George Aumont em 1867, seguindo o “modelo franco-suiço da arquitetura pitoresca” (Albergaria, 2005: 107-109).

Esta unidade de paisagem de rara beleza, que começou a ser plantada por volta de 1858, está aberta ao público desde agosto de 2014. Assim, possibilita aos aficionados da flora e dos jardins a observação duma riquíssima coleção de camélias ao longo das extensas alamedas e no novo “camalieto”, floridas entre dezembro e maio, e o convívio com imensas árvores notáveis, algumas indígenas e muitas originárias de regiões temperadas e subtropicais.

Mata-Jardim

Mata-Jardim José do Canto.

Flora e percursos

Logo à entrada os visitantes são recebidos por nogueiras-do-cáucaso (Pterocarya fraxinifolia), que no verão exibem cachos compridos com pequenos frutos alados, e por uma monumental azinheira (Quercus rotundifolia) alcandorada no talude. Quem se aventurar pelo curto trilho até à azinheira terá oportunidade de desfrutar duma perspetiva única da lagoa e dos muitos verdes das copas das árvores perenifólias e caducifólias posicionadas ao longo da alameda principal. Esta estabelece a ligação entre o Vale dos Fetos, a poente, e a Capela de Nossa Senhora das Vitórias, a nascente.

No percurso até ao Vale dos Fetos o visitante tem oportunidade de apreciar tulipeiros arbóreos, azinheiras gigantes, carvalhos-dos-pântanos, sequóias monumentais, araucárias de grande porte, gincos fantásticos. Também se apresentam aos olhos palmeiras da China, Austrália e Nova Zelândia, rododendros dos Himalaias, eucaliptos e cordilinas da Austrália, azevinhos, paus-brancos e loureiros indígenas dos Açores, camélias da extremidade oriental da Ásia ou criadas em viveiros ingleses, franceses, italianos e portugueses. Poderá ainda observar um pomar de macieiras com uma rica representação de variedades regionais.

Camellia japonica.

Vale dos Fetos

No Vale dos Fetos (criado em meados do século XX por Ernesto Hintze Ribeiro em substituição do primitivo, que se localizava fora da atual propriedade e que foi destruído), as frondes dos fetos arbóreos vindos da Austrália e da Nova Zelândia (Cyathea australis, Cyathea cooperi, Cyathea medularis) disputam a luz do sol com as coroas de folhas pinadas das palmeiras-elegantes (Archontophoenix alexandrae, Archontophoenix cunninghamiana), da palmeira-da-nova-zelândia (Rhopalostylis sapida) e da palmeira-das-canárias (Phoenix canariensis), das palmeiras-de-leque (Livistona australis) e das palmeiras-de-monho-de-vento (Trachy- carpus fortunei). Por baixo deste dossel, sobressaem pelo porte e formosura, fetos das espécies Angiopteris evecta , Cibotium glaucum e Dicksonia antarctica.

Após a visita ao Vale dos Fetos sugiro um percurso de 2 Km até à cascata do Salto do Rosal. Pelo caminho surgem imensas cameleiras, criptomérias, carvalhos, tulipeiros, gincos e sequóias do tempo de José do Canto. Já perto do Salto do Rosal prospera a maior das sequóias (Sequoia sempervirens) da Mata-Jardim e possivelmente uma das maiores em todo o território nacional. Nas margens da Ribeira do Rosal os indígenas fetos-de-botão (Woodwardia radicans) tentam conquistar espaço num território dominado pelas conteiras (Hedychium gardnerianum) e pelas árvores-do-incenso (Pittosporum undulatum) chegadas a São Miguel no século XIX.

No meio da exuberante vegetação destacam-se as esculturas talhadas na rocha vulcânica pela água que mergulha no Salto do Rosal. No regresso ao ponto de partida, vale a pena fazer um pequeno desvio até à Nascente do Tornino, onde José do Canto foi buscar água para as casas, e apreciar o Ginkgo biloba.

Referências bibliográficas:

ALBERGARIA, I. S. (2005) – Parques e Jardins dos Açores. Argumentum, Lisboa.

GOEZE, E. (1867) – A Ilha de São Miguel e o Jardim Botânico de Coimbra. Imprensa da Universidade, Coimbra.

Fotos: Raimundo Quintal

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