Viagens

Índia, um país de contrastes e espiritualidade

Jag Niwas (séc. XVIII), em Udaipur.

 

Pela boca de quem lá foi, a Índia, ou se ama de paixão, ou se detesta. Para uns é um país que incomoda pela miséria evidente nas ruas, pela confusão e pela falta de higiene; para outros é fascinante, com uma cultura riquíssima e cheio de espiritualidade. Durante muitos anos, tive medo de lá ir e cair no primeiro grupo.

Contrastes

Estreei a Índia com uma visita de um mês. Mas porque não há uma Índia, mas sim, várias Índias, fiquei-me pelo Rajastão, antigo Rajputana, nome de muito melhor sonoridade. Percorri Deli, Jodhpur, Udaipur, Ranakpur, Jaipur, Alwar, Agra, Fatehpur Sikri e Gurgaon, que me fascinaram e encantaram em três tempos. O Rajastão é atualmente um dos principais destinos turísticos da Índia, e a principal razão é a admirável arquitetura Mogol. Os Mogol, descendentes dos Timurides – império fundado pelo Turco-Mongol, Tamerlão ou Timur -, dominaram o sub-continente Indiano, desde a Baía de Bengala até Kabul, do séc. XVI a meados do séc. XVIII.

Babur, o fundador da dinastia Mogol, muito influenciado pela cultura Persa então dominante em Samarcanda (hoje Uzbequistão), dedicou-se a alargar o Império e a construir palácios. Ele e os seus descendentes deixaram uma marca profunda na arquitetura mundial através de um legado de fortes, palácios, mesquitas, túmulos e jardins. Aliando formas tipicamente Islâmicas a outras totalmente locais, a arquitetura Mogol é, simultaneamente, impressionante e harmoniosa.

Fatehpur Sikri (séc. XVI).

 

Mas no Rajastão, uma extraordinária monumentalidade convive lado a lado com uma extrema pobreza. Elefantes, vacas, cabras, cães, porcos e pessoas, disputam cada centímetro de espaço nas ruas. Não há semáforos, nem polícias, nem gritos ou insultos. O trânsito segue numa corrente constantemente interrompida por pessoas e animais, sem que uns ou outros sejam molestados. Para atravessar uma rua, o peão tem que delinear uma estratégia. Ao fim de algum dias, percebi que tinha que me atirar para a frente dos autocarros, porque eram os únicos que conseguiam travar a tempo de não me atropelar.

O lixo é recolhido manualmente, de forma aleatória, por homens sem farda e sem luvas, e atirado para dentro de carroças ou camionetas de caixa aberta, com algumas dezenas de anos . Curiosamente, não cheira mal. Percebi porquê. É que o lixo, abundante nas ruas, é apenas o não reciclável e não perecível. Tudo o resto é devorado pelas vacas, cães e cabras ou aproveitado pelos humanos. As mulheres, seja qual for a humilde tarefa que desempenham, ostentam saris de cores maravilhosas, incrivelmente limpos e muitas vezes com bordados a dourado. O amarelo-açafrão, o azul, o rosa e o vermelho, conferem uma mancha de beleza e cor que faz esquecer a sua condição de pobreza.

Espiritualidade

A Índia é um espetáculo humano que não nos cansamos de admirar, pela estranheza de hábitos e costumes, mas também pela espiritualidade que transparece em todos os gestos. Brahma, Shiva, Vishnu, Ganesh e Hanuman, são os deuses mais populares. Cada um tem um dia de semana atribuído, e, embora se possa adorar vários deuses, cada indiano tem “o seu” deus preferido, de acordo com a história da sua vida ou com a necessidade mais premente do momento. Homens ou mulheres, se vão ao templo rezar, ostentam o bindi da cor apropriada. Não há qualquer reserva em mostrar devoção. Pelo contrário, é com gosto que nos falam da sua religião, da complexa rede de deuses e deusas e das relações entre eles (Parvati é mulher de Shiva e Ganesh é filho de ambos, etc.), e da reincarnação, que é considerada como um dado adquirido e encarada com naturalidade.

Talvez o que acabe por nos seduzir mais sejam os próprios Indianos. São educados, inteligentes, discretos, e delicados. Para eles, a felicidade não está relacionada com o poder de aquisição de bens materiais. Vê-se que, na mais extrema pobreza, há aquilo a que Rohinton Mistry chamou “a fine balance”. São parâmetros e referências muito diferentes dos nossos.

Taj Mahal.

O icónico Taj Mahal

Fui ver o Taj Mahal com algum receio, já que a vulgarização da sua imagem retira o efeito de surpresa. Mas o túmulo mais icónico do mundo não me desiludiu. Vi-o, como é obrigatório, ao pôr do sol e de manhã cedo, e é de cortar a respiração. Para além das formas perfeitas e do lendário trabalho de pietra dura, é o espaço do charbagh que medeia entre o arco da entrada e o monumento que lhe confere a tão celebrada elegância e grandiosidade.

Forte de Amber (séc. XVII), em Jaipur.

 

Os jardins Mogol

Um importante complemento dos magníficos palácios e túmulos Mogol são os seus jardins. O clima e a influência Persa fazem com que o seu principal elemento seja a água e não haja jardins com formas naturais. Todos eles, mesmo os atuais, são charbaghs, isto é, constituídos por canais de água que dividem o jardim em quatro partes. A água provinha de nascentes e ajudava a suportar o calor e o pó pela sensação frescura que sugere. Infelizmente, muito poucos monumentos têm atualmente os seus canais de água a funcionar. Assim, apenas a nossa imaginação pode completar o quadro do que seria o espetáculo da água a correr em desníveis de uns canais para os outros.

Passeando por vários jardins confirmei a constante presença de canais de água e da divisão quadripartida das áreas. Tanques, jatos de água geometricamente alinhados, e pequenas fontes, são mais importantes que a vegetação, que é discreta e pouco exuberante na época seca do inverno. O Rajastão é um maravilhoso passeio pelo passado, em que o séc. XXI só se manifesta quando passamos as portas dos hotéis de luxo. A Índia é um destino fundamental para quem queira aflorar uma compreensão do Mundo em que vivemos. Namaste!

Fotos: Vera Nobre da Costa

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