Jardins Viagens

La Bella Toscana

As datas da viagem não prenunciavam nada de bom: pleno verão em Itália, na Toscana, para mim é igual a demasiado calor para andar ao sol, multidões de turistas assarapantados, trânsito infernal nas estradas, restaurantes cheios, etc. Enfim, tudo aquilo que sempre procuro evitar a todo o custo viajando fora de estação. Desta vez não houve volta a dar-lhe: convidada para casa de amigos, as datas disponíveis a ambas as partes só deixavam como possível a última semana de julho.

O jardim é apenas uma paragem para o espetáculo da paisagem

A beleza da Toscana

Já tinha estado por diversas vezes na Toscana, que me encanta pela sua homogeneidade arquitetónica e paisagem impoluta, iguarias gastronómicas e simpatia dos autóctones. O plano era ir de carro de Roma até ao destino, parando em pequenas aldeias e vilinhas interessantes que surgissem pelo caminho. Há muitas. Saindo das autoestradas, a escolha abunda e há sempre, mas sempre, algo que merece um desvio: uma igreja com frescos notáveis; um restaurante onde se come o melhor “qualquer coisa” da região; uma loja especial para comprar um queijo extraordinário; um salame biológico; a incontornável bisteca; vinagre balsâmico caseiro; um azeite especialíssimo ou até panforte, esse campeão de calorias.

Um barbecue com paisagem em fundo e o galo, símbolo da Toscana

A verdade é que para os toscanos qualquer pretexto serve para se sentarem à volta de uma mesa e não importa nada se isso requer um esforço de deslocação. Em 1978, na primeira vez que a visitei, no táxi que me levou do aeroporto ao hotel, o condutor, em início de conversa, explicou-me que “in Toscana si apprezza la vita”. E é bem verdade.

Um alpendre/ sala de jantar mesmo junto à cozinha

A riqueza histórica

Nas anteriores idas à Toscana, ao longo dos anos, já tinha ido às suas grandes villae e jardins mais notáveis como Boboli, Petraia, Gamberaia, e as várias Medici. A Toscana é um dos grandes palcos dos períodos do Renascimento e Barroco italianos, mas, desta vez, esses magníficos lugares eram para esquecer dado o risco de visitar a história aos encontrões e cotoveladas.

O encanto de subir esta escada

Assim, demorámos quatro dias a percorrer os 255 km que ligam Roma ao Chianti. Orvieto, Pienza, San Giovanni d’Asso, Castellina, Radda, Panzano, Greve, Volpaia sucederam-se com paragens mais ou menos prolongadas. Passando ao largo de Siena, Florença e San Gimignano, evita-se o turismo de massas e até o trânsito, já que a maior parte dos percursos é feita por strada bianca, esses caminhos sem asfalto, em saibro, que, por serem menos rápidos, não estão valorizadas nos guias turísticos e não permitem a circulação de autocarros. Concentremo-nos pois nos jardins “normais” e na paisagem. A arquitetura toscana, mercê de leis mussolinianas, tem uma total homogeneidade. As paredes dos edificados velhos ou novos, pobres ou ricos, grandes ou pequenos são sempre em tons de ocre ou em pedra. Mas não se pense que isto torna a paisagem monótona e desinteressante.

O azeite, o vinho, a paisagem

Pelo contrário, afirma o carácter da região e a manutenção da tradição (essa coisa tão difícil de conseguir entre nós). Das aldeias, habitualmente situadas em pontos altos, avista-se uma paisagem sem fim, sem casario, pontuada pela verticalidade digna dos ciprestes e a horizontalidade das vinhas plantadas. Impoluta e relaxante.

Os jardins

Os jardins, todos privados, que por lá visitei, não têm, inteligentemente, um design elaborado, mas antes são um simples prolongamento das casas, dos quais se avista a soberba paisagem toscana. Oliveiras, laranjeiras e muitas outras árvores de fruto levam primazia às árvores simplesmente decorativas, com a única exceção dos característicos ciprestes. Nos jardins de maior porte, há a presença de água, geralmente em tanques de pedra. A pequena vegetação tende a servir o paladar (salva, alecrim, rosmaninho, manjericão, salsa) e o olfato (alfazema, jasmim). E também há flores e apontamentos simplesmente decorativos, só que contidos em vasos.

Como decorar uma simples entrada

A arte de enfeitar jardins, escadas, ruas e casas com vasos não é fácil e pode cair facilmente num efeito de mostruário folclórico, mas, na Toscana, os vasos são sempre em terracota e grandes, pequenos e médios, lisos ou com decorações em relevo constituem um dos ex-líbris desta região de Itália e proporcionam uma outra consistência na decoração.

O sossego e encanto da Toscana foram-se mal cheguei à estação de comboios de Florença para regressar a Roma. Como dispunha de três quartos de hora antes de apanhar o comboio, tive a infeliz lembrança de atravessar a praça para matar saudades da Igreja de Santa Maria Novella. Uma fila de cerca de 300 turistas esperava ao calor do sol para entrar e um diligente funcionário anunciava o tempo de espera: uma hora e meia. Desisti logo.

Fotos: Vera Nobre da Costa

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