Viagens

“La Selva”, uns dias tropicais na Costa Rica

Com uma precipitação anual de 4000 mm, não admira. Se em Lisboa este valor anda à volta dos 800 mmm, cinco vezes menos do que aqui, já dá para imaginar.

E, felizmente, agora é o “verão”, ou seja, a estação “seca”, de novembro a abril; no “inverno”, na restante época do ano, de maio a outubro, então é que chove mesmo, todos os dias e todas noites.

Na casa de madeira onde estamos, qualquer material que tenha o mínimo ingrediente orgânico, rapidamente cria mofo e fungos; o papel encaracola, a roupa parece que nunca secou, as pilhas estragam-se e com elas os aparelhos que delas necessitavam para funcionar. A humidade de 100 por cento tudo envolve como uma grande nuvem, onde parece que somos só mais uma gota, estranhamente ainda sólida. Os ponchos e as galochas são a moda necessária.

Onde estamos

Aqui é “a selva”, a floresta tropical húmida, onde qualquer espaço a que chegue uma pequena réstia de luz está cheio de vida. Aqui também é La Selva, uma estação de investigação biológica a funcionar há 50 anos, e uma referência mundial da ecologia tropical. Aqui, estamos na América Central, Costa Rica, província de Heredia, cantão de Sarapiquí. Por aqui andaram durante 1500 anos os índios botos; deixaram as suas marcas bem escondidas sob rama e ramos, troncos e folhada. Foram provavelmente dizimados pelas doenças europeias da ocupação espanhola. Os botos praticavam agricultura itinerante, caçavam, pescavam, viviam da selva.

Bosques primários e bosques secundários

Que hoje parecem mesmo assim “virgens”, mas que então, por eles, não o são; diz-se assim que estamos em território de bosques viejos (e não – como antes das investigações arqueológicas se dizia – de “bosques primários”).

Mas há “bosques secundários” decorrentes da regeneração natural de vários cultivos abandonados, potreros ou pastos e cacaotales de cacau. Noutras partes da Costa Rica, são os cafetales de café, já abandonados, que constituem a base da regeneração da floresta.

E a tal presença constante da chuva e uma temperatura média anual de 27 °C faz com que tudo cresça muito depressa; em dez anos de abandono de intervenção humana um cacaotal aos olhos menos treinados, parece já uma floresta primitiva com árvores de várias alturas, arbustos, lianas, bromélias, líquenes, orquídeas, fetos, trepadoras, musgos, numa enorme diversidade de formas, texturas e alturas de um bosque sempre verde.

Um truque a observar contudo:

Se há palmeiras no sub-bosque, o bosque é antigo; outro: se é impenetrável, deve ser um bosque recente – muitas plantas, mas de diâmetros pequenos. Um bosque maduro tem árvores grossas e altas, mas o sub-bosque é mais “transitável”.

Zonas húmidas

E onde chove muito há naturalmente muitos rios, ribeiras, regatos e zonas húmidas; as mais ou menos permanentes recebem aqui um nome de influência gringa: suampos.

As variações de nível podem ser de muitos metros, em poucas horas. As chuvas fortes e intensas muitas vezes dão cheias rápidas, mesmo com a retenção de água na floresta.

Esta retenção é maior no material vegetal que no solo, já que este é de reduzida espessura, fruto dessa chuva constante que não o deixa acumular. As briófitas (vulgarmente conhecidas por musgos), que crescem nos troncos de quase todos os ramos, são capazes de absorver cerca de metade de toda a chuva que cai na floresta. Podem variar o seu volume em 140 vezes, entre um estado de total secura e de total humidade. São verdadeiras esponjas na selva.

E mesmo que estejam num herbário, com anos de secura em papel de jornal, se se voltam a encontrar-se com a água, lá voltam a aumentar o seu volume até não aguentarem mais.

A natureza em estado “bruto”

Passear nos trilhos e matas de La Selva implica também um contacto, sem intermediários, com a natureza em máxima expressão de biodiversidade; para qualquer lado que apontemos o binóculo ou a lupa, há sempre qualquer animal e principalmente, muitíssimas plantas: 2077 espécies vegetais estão coletadas e identificadas só nesta estação biológica. E disponíveis online, na Florula Digital de La Selva.

Sigamos, por exemplo, com as aves: 477 espécies nestes 1600 hectares da estação, mais de metade das 970 espécies reconhecidas em toda a Costa Rica. Que no caso de La Selva representa assim 51 por cento das mesmas, em apenas 0,03 por cento da área deste país. Por isso, a par da chuva, outra constante por aqui são os grupos de birdwatchers ou pajareros. E como termo de comparação, em todo o Portugal continental, com os seus quase 10 milhões de hectares, estão registadas 444 espécies.

Se falarmos em insetos, então é que a coisa se complica, com mais de 300 mil espécies por aqui. Esta propriedade tem, contudo, muito mais valor para a ciência do que a sua incrível biodiversidade.

Um naturalista apaixonado

Com uma área inicial de cerca de 668 hectares, foi comprada em 1953, por um silvicultor norte-americano, apaixonado pelos trópicos chamado Leslie Holdridge.

Alguns anos antes, em 1947, Leslie, então investigador do Departamento de Botânica da Universidade de Michigan, tinha publicado um artigo na revista Science onde definia as chamadas “zonas de vida”, uma classificação dos biomas terrestres baseada nos valores de biotemperatura, precipitação e evapotranspiração. Esta classificação ainda hoje se usa e Leslie tornou-se famoso por ela.
Leslie queria aqui ensaiar algumas das conceções sobre utilizações agroflorestais; contudo alguns anos depois da compra, vende a propriedade, em 1968 (faz este ano de 2018, 50 anos). E a quem vende? A uma recém-constituída instituição, denominada OTS (Organization for Tropical Studies). OTS era (e é) uma associação de universidades americanas, do Norte, Centro e Sul do continente. O objetivo era o de poder fazer cursos de Biologia Tropical, in loco.

Educação ecológica de referência

Após uma frustrada tentativa anterior de a OTS comprar um lugar para tal no México, em Chiapas, a oportunidade de comprar os 668 ha de Holdridge concretizou a instalação formal desses cursos na Costa Rica. E essa primeira área foi crescendo até aos 1600 ha de hoje.

Os cursos da OTS, são desde sempre uma referência no mundo da ecologia tropical. Começados há cerca de 50 anos, afirmaram-se pelo espírito de aventura e imersão total na paisagem tropical costarricense que professores (meio loucos mas afamados) e alunos (mais loucos ainda e hoje quase todos muito afamados) partilhavam durante várias semanas em locais remotos e produzindo boa ciência.

Aliás, muito do que hoje se sabe sobre os milhares de espécies animais e vegetais e suas interações no bosque chuvoso, é fruto do trabalho de investigação de muitos biólogos e ecólogos que passaram, e passam, pela La Selva. Para termos uma ideia da produtividade destes estudiosos, estão estimadas 240 publicações científicas por ano saídas desta estação biológica. Ou seja, um paper por cada dia útil do ano.

O que é a selvamicina

Por exemplo, uma das últimas investigações começa com formigas, segue para fungos e acaba em antibióticos, em especial num deles, com um nome que no futuro será muito conhecido: “selvamicina”.

A selvamicina, deve o seu nome à estação de investigação a que nos referimos. Foi descoberta por investigadores das universidades de Costa Rica, Harvard e Michigan.

A história é fascinante: há um grupo de formigas, do género Apterostigma, que apanham sementes, restos de folhas, estames de flores e outras pequenas gulodices e levam esses pedacitos orgânicos para os seus ninhos nas bases das árvores; aí, com o que apanham no solo da floresta, alimentam uns fungos que lhes servem de alimento. Estes fungos são atacados por outros tipos de fungos.

As formigas, para protegerem os “seus” fungos, segregam bactérias que funcionam como antibióticos que atacam os fungos indesejados. Foi um destes antibióticos que foi isolado laboratorialmente e descoberto o seu enorme potencial para combater a Candida albicans, um fungo que ataca uma significativa percentagem da população humana. A “selva” tropical encerra muitos mistérios e utilidades e La Selva é uma das grandes portas de entrada para esse mundo de espanto, encanto e descoberta. A visitar sempre que possa, com ponchos e galochas.

Fotos: Jorge Cancela

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