Viagens

Myanmar: um álbum de uma viagem com flores

Havia monges muito jovens a usufruir do jardim

No Sudoeste Asiático, não há muitos jardins. Nem é preciso, pois uma generosíssima Natureza encarrega-se de amenizar a paisagem. Nunca lá fui durante a monção, cujas chuvas torrenciais e temperaturas nos 40 ºC, agravadas pela humidade, dão origem a uma estadia pouco confortável. Em compensação, experimentei invernos amenos com temperaturas entre os 20 e os 30 graus, sendo que a variação entre dia e noite não excede os dois ou três graus. Ideal para desfrutar uma viagem. E Myanmar (antiga Burma) estava nos meus planos há muitos, muitos, anos.

Em adolescente, quando li o poema de Kipling Mandalay, mitifiquei esta cidade mais pela sonoridade da célebre frase do poema “on the road to Mandalay” do que propriamente pelo assunto do mesmo, já que Kipling se referia à beleza de uma jovem birmanesa que por lá encontrou e não aos encantos da terra. E, no passado mês, lá fui eu “on the road to Mandalay“. Myanmar não dececionou as minhas conjeturas da adolescência.

Pelo contrário, o país é lindo, com uma profusão de pagodes, stupas, templos e mosteiros, todos dedicados a Buda, e uma paisagem deslumbrante. Yangon, o lago Inle, as margens do Irrawaddy, Bagan e, finalmente, Mandalay têm todos os ingredientes para satisfazer o viajante mais exigente.

O jardim Kandawgyi, em Maymyo (Pyin Oo Lwin)

Um mercado de flores

Em Mandalay, sabendo do meu interesse por jardins, disseram-me que, a cerca de duas horas e meia de carro, perto de Maymyo (cujo nome original é o complicado Pyin Oo Lwin) havia um grande jardim. Para lá fui, intrigada com a existência de um parque público naquela parte do mundo. Apenas 67 km separam a cidade de Mandalay de Maymyo, mas as estradas estreitas e a quantidade de curvas implicam um trajecto lento que o melhor é transformar em passeio.

Os únicos ramos de flores à venda

Por isso, quando a minha companheira birmanesa (é muito esquisito dizer myanmarense) deixou cair que íamos passar por um mercado de flores na estrada, quis logo parar o carro e ver de que se tratava. É que todas as manhãs, de um lado e outro da estrada, há umas bancas improvisadas com milhões de flores, organizadas por espécie e por cor, que são depois transportadas em camionetas, motos ou bicicletas com destino às cidades das redondezas.

Crisântemos multicolores

Quando lá passámos, cerca das 10h30 da manhã, embora houvesse montes (a palavra aqui é a correta para exprimir a forma como estão dispostas) de flores, já estava quase tudo vendido. Enormes quantidades de crisântemos brancos, amarelos e rosa dominavam a mostra. Mas por lá também avistei gladíolos, rosas, jasmins e outras que não consegui identificar. Os vendedores, homens e mulheres vestidos com o tradicional longyi não faziam o mínimo esforço para captar compradores, nem era necessário. “E para onde vão as flores?”, perguntei, imaginando que o destino seriam hotéis, restaurantes ou algumas casas particulares. “As flores são todas para Buda, são distribuídas pelos templos e mosteiros sob forma de dádivas dos fiéis”, foi a resposta. Ah!

Perguntei “de que árvore é esta flor?”. Responderam-me “É a flor dragão (dragon flower)”

O jardim de Pyin Oo Lwin

Mais do que um jardim, os National Kandawgyi Gardens são um parque público com cerca de 177 ha de área. Construídos em 1915, durante o domínio colonial britânico, o jardim destinava-se na época ao deleite dos expatriados que se refugiavam em Maymyo dos calores excessivos dos meses de verão. A sua localização, a 1078 metros acima do nível do mar, origina um clima fresco e agradável que favorece o aparecimento de flores durante todo o ano. Foi o suficiente para que um oficial britânico, Alex Rodger, com a ajuda de Lady Cuffe uma botânica de Kew, procedesse à desbravação da floresta e transformasse a área num parque “à inglesa”, com relvados, canteiros e lagos, ostentando a designação de Jardim Botânico.

“Jardim” de um hotel em Mandalay

Kandawagyi foi devassado e destruído durante as várias guerras do século XX, mas, finalmente, em 2000, percebendo o seu potencial como atração turística do local, o Governo ordenou a sua recuperação e, atualmente, o jardim de Pyin Oo Lwin é sobretudo frequentado por birmaneses que se alojam em Maymyo para usufruir da amenidade do clima. Muito bem mantido, tem várias áreas de interesse como o Jardim de Orquídeas, o Museu de Borboletas, o Museu de Madeiras Petrificadas e, sobretudo, uma enorme área de floresta intocada, onde pululam macacos cujos guinchos cortam o silêncio e despertam a curiosidade da criançada. Maymyo foi o último ponto de uma longa viagem que começou no Sul de Myanmar, em Yangon.

O lago e os canteiros de flores

Fotos: Vera Nobre da Costa

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