Jardins Viagens

Ritsurin: uma visão do paraíso

Passeio num barco wasen com o Monte Shuin em fundo

No Japão, faço habitualmente base em Kyoto, mas tento explorar os jardins e paisagens que o extraordinário sistema de transportes Nipónico proporciona, mesmo que as distâncias e a geografia não sejam fáceis.

Desafiei a minha amiga Aoi, arquiteta paisagista que trabalha em vários jardins históricos de Kyoto, a ir um fim de semana a Okayama ver o famoso Korakuen, que eu ainda não conhecia. Logo foi contraproposto, que, se o plano era dormir uma noite em Kurashiki, perto de Okayama, no dia seguinte deveríamos rumar a Takamatsu, para eu ter a experiência do que ela considerava um jardim do período Edo (1680-1868), imperdível para quem estuda a cultura Japonesa: o Ritsurin.

Partimos para Okayama numa manhã de sábado em que, apesar de um tremor de terra de grau 6 que acordou a cidade às 5:30 da manhã e interrompeu durante algumas horas a circulação dos comboios e metro, não houve quaisquer perturbações nos horários de partida ou de chegada. A única nota diferente eram as carruagens mais cheias que o costume de imperturbáveis Japoneses. Ao fim de 3 horas e meia de viajem, chegámos a Okayama para visitar o Korakuen. Depois de uma noite em Kurashiki, uma deliciosa cidade cruzada por canais, que parece ter ficado parada no tempo, mais uma hora e meia de comboio levou-nos, finalmente, a Takamatsu.

O Pavilhão de chá Kikugetsu-tei

Na internet, o nosso ryokan com onsen (nascente de água quente), prometia uma linda vista para o mar e a lendária ilha de Seto. Infelizmente, da janela do quarto no alto da montanha, o mar era o dos telhados das casas dos 900.000 habitantes da cidade, e o outro, o azul, o verdadeiro, apenas uma mancha lá muito ao fundo.

Mas reconciliei-me com Takamatsu quando cheguei, na manhã de segunda-feira, ao Ritsurin. Trata-se de um jardim de passeio mandado fazer pelo daimyo (senhor feudal) Takatoshi Ikoma e mais tarde herdado pelo seu sucessor, Yorishige Matsudaira. O jardim permaneceu em sucessivas gerações na família Matsudaira, que o foi mantendo e aumentando até que, em 1754, passou a ser usado como residência da família. A partir de 1875, com o advento da era Meiji, foi aberto ao público.

Fazendo um Ikebana

Ikebana e chá

Entrámos pelo portão Norte, e, contornando o lago dos lotus, Fuyo-sho, o jardim envolveu-nos na sua tranquilidade de uma segunda-feira de manhã, em que o único ruído que se ouvia era o dos nossos passos e o dos passarinhos que celebravam aquele dia de primavera. O hábil shakkei  (paisagem emprestada) oferecido pela silhueta do  Monte Shiun, serve de fundo ao jardim. Um grupo de Japoneses, sentados no chão, entregava-se a uma tarefa coletiva que vim a perceber se tratava da leitura de um livro em voz alta. A disciplina deste povo é bem patente na forma como se sentam em volta do habitual quadrado de tela azul, os sapatos impecavelmente alinhados atrás de cada um, de chapéu na cabeça apesar da sombra das árvores. Quando saírem, não deixarão qualquer rasto da sua presença.

Um Pinheiro que é uma escultura

Passando para o lado Sul do jardim, entra-se no Japão dos bilhetes postais: 1.400 pinheiros rodeiam um lago de 9.000 m², onde um barco wasen passeia uma família de Nipónicos todos equipados de chapéus de palha tradicionais para não destoar da paisagem. Do tatami do Pavilhão de Chá Kikugetsu-tei, uma estrutura de madeira, aberta por todos os lados, que avança lago adentro, desfruta-se a visão espetacular de três pequenas ilhas, imaculadamente plantadas com Pinheiros de ramos pendentes para a água.

Uma senhora vestida de kimono serve-nos uma Macha (chá verde em pó) e um doce, que vêm completar o bem-estar físico e mental que toda aquela envolvente proporciona. Noutra sala do Pavilhão, várias senhoras ajoelhadas no chão, concentradíssimas, fazem arranjos de Ikebana para uma festa a ocorrer nessa noite. Um jardim Japonês é sinónimo de paz e tranquilidade.

A Ilha das Azáleas

A importância do detalhe

O Ritsurin é abastecido pela água de uma fonte natural (fukiage) que escorrega para o lago, num murmúrio baixinho, por entre uma plantação de Iris. Situada no lado oposto ao Pavilhão de Chá, é outro ponto de paragem de incrível beleza. Logo à frente, o lago é atravessado por uma ponte que nos leva a outra visão surpreendente: a Ilha das Azáleas, inteiramente coberta de Azáleas podadas em redondo a lembrar os enormes pedregulhos de outros jardins.

Ponte miradouro

Mas no Ritsurin também há pedras, todas especiais, muitas delas históricas porque oferecidas por algum notável de Setecentos ou porque provém de um local sagrado. A Aoi fotografa as pedras à exaustão classificando-as como se de plantas vivas se tratasse, admirando-lhes a cor, o veio, a forma, ou a colocação. A vantagem de se visitar estes jardins com pessoas que deles fazem a sua vida, é que reparamos no detalhe, que, para eles, é tão importante como para nós é o efeito geral da composição.

O Ritsurin é exemplar na harmonia de todos os elementos de um jardim tradicional de passeio Japonês: montanha, água, ilhas, pontes e Pavilhões de chá, remetem-nos para uma visão do Paraíso em que o bem-estar é a palavra de ordem.

Fotos: Vera Nobre da Costa

Gostou deste artigo? Siga-nos no Facebook, no Instagram e no Pinterest e subscreva o nosso canal no Youtube

Poderá Também Gostar