Viagens

Vietnam, um festival de flores sem jardins

Hue – Citadela (séc. XIX).

 

Há países, que, não sabemos bem porquê, nos fascinam pela sua história e pela sua cultura e, por isso, são objecto de leitura  regular e intensa. no meu caso, esse interesse orienta-se para o Japão, claro, mas também para a Rússia, China, Índia e Vietnam. Apenas este último me faltava conhecer diretamente, contatar as suas gentes, visitar os mercados, passear nas ruas, sentir os cheiros, e assim enquadrar uma memória da guerra da Indochina, só conhecida através da literatura e do cinema, e da mais recente guerra do Vietnam contra os EUA, esta já contemporânea da minha adolescência e sentida através da televisão, dos testemunhos diretos e das manifestações de protesto dos anos sessenta.

O recanto verde de Ho Chi Min

Cheguei a Hanoi no final de fevereiro em pleno Tet, a maior celebração anual dos Vietnamitas. É uma altura particularmente feliz para se visitar o país porque há uma atmosfera de festa e de alegria que são contagiantes. Além de balões e cartazes festivos, enormes vasos de Crisântemos amarelos pontuam ruas, casas, templos e lojas. O Mausoléu de Ho Chi Minh foi o primeiro monumento que visitei, porque é um ponto de honra para os Vietnamitas e, por isso, de visita obrigatória. É um edifício feio, de arquitetura severa de influência soviética, onde se tem que entrar vestido de forma decorosa, em silêncio, mostrando uma atitude de respeito e reverência para prestar homenagem ao cadáver embalsamado deste líder comunista revolucionário, figura chave da fundação da república democrática do Vietnam, em 1945. Dois guardas à entrada solicitaram-me que tirasse os óculos escuros e as mãos dos bolsos. Mas o espectáculo lúgubre do interior do mausoléu é suavizado à saída com a visão de um dos pouquíssimos espaços ajardinados que encontrei em todo o Vietnam.

Jardim Botânico de Hanoi – Lago da casa de Ho Chi Minh.

 

Pomposamente chamado de Jardim Botânico nas páginas do guia Eyewitness Travel, a área que envolve o mausoléu, o museu e a casa de Ho Chi Minh tem dois belíssimos lagos rodeados por uma vegetação luxuriante. Ho Chi Minh erigiu num recanto da área do palácio imperial, que ele considerou demasiado imponente para nele se sentir confortável, uma simples casa palafita segundo a tradição Vietnamita. A casa é espartana e o seu único luxo é justamente a vista para o lago emoldurado por Frangipani (Plumeria rubra), hibiscos, buganvília, mangueira, jasmim, etc., numa explosão de verdes, encarnados e amarelos que crescem pujantes, de forma não organizada.

Hanoi – Templo da Literatura (séc. XI).

 

No curioso Templo da Literatura, o mais antigo complexo arquitectónico de Hanoi, estabelecido em 1070 e dedicado a Confúcio, que serviu durante 700 anos para educar e preparar os futuros mandarins, também  se encontram uns vagos apontamentos de áreas ajardinadas, suponho que apenas assim mantidas dada a importância histórica do edificado. Percorrendo o país de norte para sul, passei pela baía de Halong, por si só uma das mais belas paisagens naturais do mundo; por Hue, cidade imperial;  Hoi an, onde os portugueses aportaram em 1516; saigão e, finalmente, Can Tho em pleno delta do Mekong.

Rua de Hoi An.

 

Uma mistura de influências

De barco, avião e automóvel, fui descobrindo este país misterioso cuja história trágica conhecia, mas cujas gentes e paisagens me eram  estranhas. Vestígios da guerra pouco se vêem, abafados que são pela natureza, implacável no seu avanço, e resistindo a todas as barbaridades impostas  primeiro pelos fogos provocados durante a colonização Francesa para permitir a exploração da borracha, depois pelo lançamento do napalm e do “agente Laranja” com que os americanos tentaram liquidar a marcha dos Vietcong. Até as valas do massacre de My Lai surgem hoje como uma paisagem inocente e verdejante. É que nestas condições geo-climáticas tudo cresce, tudo se desenvolve, há uma verdadeira explosão do mundo vegetal.

Pagode de Thien Mu – Jardim de Bonsais.

 

Assim, não admira que não haja jardins. Para além das implicações económicas, num país a lutar pela sua recuperação, a moldura vegetal está de tal forma presente por toda a parte que dispensa a necessidade que outros povos têm de criar artificiais imitações da natureza. No entanto, certamente por influência Chinesa e Ocidental, aqui e ali, há umas intrigantes manifestações de garden landscaping, nos templos ou edifícios considerados mais importantes. Mas poucas plantas são colocadas no solo. Antes as distribuem por vasos, alguns de grandes dimensões. Até um jardim de vasos de Bonsais lá encontrei. Não há rua ou casa que não tenha vasos à porta. Nesta época do ano, a predominância era para os já mencionados crisântemos amarelos, mas também os vi de buganvília, orquídeas, lantana, cana-da-Índia, etc.. Cor e verdura de tonalidades várias é coisa que não falta.

Hue – Túmulo de Minh Mang.

 

Os vasos alinhados servem para marcar a entrada dos edifícios ou para decorar tanques. não se vêem canteiros, e, apenas no Túmulo de Minh Mang, em Hue, encontrei uma composição de parterres de clara inspiração europeia. De resto, a influência do domínio Chinês durante cerca de 1000 anos, seguidos de 150 anos de colonização Francesa, e já mais recentemente o inevitável contágio americano, parecem ter criado uma grande confusão estética.

Os poucos jardins existentes aparentam uma mistura de elementos provenientes da China misturados com outros de clara influência ocidental. Mas não importa, uma economia com um crescimento de 6% ao ano e o facto de 42% da população ser constituída por jovens com menos de 24 anos (em Portugal são 27%!), contribuem para que o tom de optimismo, a energia e a esperança no futuro sejam as notas dominantes com que ficamos.

Fotos: Vera Nobre da Costa

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