Jardins

A Villa do Imperador Adriano

Teatro Marittimo.

A Villa Adriana, em Tivoli, Itália, é um local quase mítico na história dos jardins. Mandada construir por Adriano (76-138) a partir de 118, teve várias etapas na sua construção, mas sabe-se que, em 125, já o Imperador aí residia.

 

Não é apenas uma Villa de recreio fora de Roma, mas antes um grandioso complexo, como que uma cidadela residencial, que devia ocupar na época uma área de cerca de 120 hectares. O relativo afastamento de Roma, uma natureza generosa e a presença de água, fizeram com que Adriano escolhesse  aquele lugar para sua residência oficial.

A marca de Adriano

Fontes históricas descrevem-no como um homem alto, robusto mas elegante, de cabelo encaracolado e, inusitadamente, com uma barba. O Imperador encarnava o espírito da mens sana in corpore sano, aliando o gosto do exercício físico com uma intensa atividade intelectual. Homem cultíssimo e possuidor de uma memória excecional, dominava áreas tão diversas como a aritmética e geometria, a literatura e a arte. Pintava e escrevia poesia, e a arquitetura era um dos seus principais interesses, o  que o leva a ser o mentor do projeto da Villa em Tivoli, sendo que a ele também se devem o Panteão e o mausoléu de Castel Sant’Angelo.

Friso de Cariátides no Canopus.

No dia em que lá fui, o sol brilhava e, felizmente, havia muito poucos visitantes. É que, apesar de ser um dos mais emocionantes lugares que visitei em Itália, não faz parte do triângulo turístico do Coliseu, Vaticano e Forum Romano. Não se percebe porquê. Afinal, trata-se de um incrível testemunho  da Antiguidade Clássica, sobretudo, porque, tal como Pompeia, além da beleza dos edificados em ruína e dos jardins, nos desvenda um  pouco os usos e costumes dos Romanos dos primeiros séculos.

Haverá melhor maneira de reconstituir mentalmente a história do que observar ao vivo que o Imperador e o seu entorno tinham na Villa de Tivoli, para além do inevitável Palácio Imperial, duas Bibliotecas, uma Grega e uma Latina; uma arena de gladiadores; um hospital; um templo; dois estabelecimentos de banhos; um teatro Grego; uma academia; alojamento para a guarda pretoriana; e uma incrível subestrutura de quatro andares, designada por Cem Quartos, onde se alojavam os serviçais mais modestos?

Serapeum.

As viagens de Adriano

Adriano dedicou muitos anos da sua vida a viajar pelos territórios Romanos desde a Gália, a Britânia (onde mandou edificar parte da célebre Muralha de Adriano a sul da Escócia), a Germânia e a Espanha, até à Grécia, Ásia Menor e Egito.  Destas viajens  trouxe um misto de gratas recordações e um enorme desgosto: o da morte de Antinoo, um jovem de 18 anos, de excecional beleza, por quem se apaixonou loucamente, e que foi seu companheiro durante alguns anos. Nunca se apurou se a morte de Antinoo, no Nilo, se deveu a um acidente, a um suicídio ou a um homicídio. O certo é que a dor levou Adriano a divinizar o jovem – honra exclusiva aos Imperadores ou membros da família real -, a erigir templos e até cidades (Antinoopolis) com o seu nome, e a imortalizá-lo através de inúmeras efígies, bustos, esculturas e baixos relevos.

Pecile.

Recordações

A Villa Adriana é o resultado de tudo isto: uma colossal recolha das suas recordações que Adriano organiza com mão de mestre para sua reminiscência pessoal e deleite dos outros. A Villa não pode ser vista com pressa se a queremos percorrer na sua totalidade e apreciá-la devidamente. Há que contar com, pelo menos, umas três ou quatro horas. Mas, devo confessar, que uma boa parte desse tempo, passei-o a contemplar o Canopus e a recordar Adriano, que conhecia bem desde que li, aos 20 anos, o genial  livro de Marguerite Yourcenar  “Mémoires d’Hadrien”, uma autobiografia imaginária do Imperador.

Pórtico do Canopus.

O Canopus é um espelho de água de 119 x 18 metros, inspirado no canal de água que ligava a cidade com o mesmo nome, no delta do Nilo, a Alexandria. Ladeado por Cariátides, jardins e uma colunata, o Canopus tinha o seu melhor ponto de observação de um Ninféu monumental, chamado Serapeum (nome do templo a Serapis). Um  banco semicircular inclinado sugere que era uma zona de banquetes, ladeada por pequenas piscinas com cascatas. A residência privada de Adriano era no Teatro Marittimo, uma fascinante estrutura circular, isolada do exterior por um muro e um canal de água, uma ilha de isolamento, para onde o Imperador se retirava e onde só deixava entrar quem queria.

Falta-me o espaço para acabar de descrever todo o complexo, mas saibam que ficará para sempre na minha memória a recordação do impacto do Pecile, quando transpus a porta da muralha da Villa e entrei no segredo de Adriano.

Fotos: Vera Nobre da Costa

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