
Guimarães foi eleita Capital Verde Europeia 2026, uma distinção que reflete o caminho feito nos últimos anos pelo município e pelo Laboratório da Paisagem em prol dum desenvolvimento sustentável. A associação, fundada em 2014 pelo Município de Guimarães, pela Universidade do Minho e pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, tem assumido um papel fundamental na implementação das políticas e práticas que conduziram a esta distinção. Idealmente, poderão servir de modelo ao resto do país. Em conversa com Pedro Cunha, coordenador da Comunicação do Laboratório da Paisagem, descortinamos os desafios que o território nacional enfrenta. Além disso, exploramos as oportunidades que poderão advir desta distinção internacional.
Que medidas práticas foram tomadas nos últimos anos e como correu a implementação das mesmas?
Desde 2014, Guimarães tem reforçado o seu caminho e aposta na área climática, assumindo como objetivo construir um território mais resiliente e com melhor qualidade de vida para os cidadãos. Este compromisso está alinhado com os princípios do desenvolvimento sustentável do território nacional. Esse compromisso, suportado por um modelo de governança que reforçou a ligação entre os sectores público e privado, a academia e os cidadãos, tem sido reconhecido nacional e internacionalmente. A criação do Laboratório da Paisagem como hub de investigação e inovação com uma forte aposta na educação para a sustentabilidade acabou por ser determinante em todo este trajeto. No entanto, só foi possível face ao envolvimento de todos: cidadãos, associações e empresas. Do programa municipal de educação ambiental PEGADAS, que mobiliza milhares de alunos em ações de fomento da literacia climática, à estratégia de promoção da economia circular RRRCICLO, ou ao reforço da conectividade dos espaços verdes e de reabilitação dos corredores verdes e azuis, todos são exemplos concretos de inovação social e ambiental.
Guimarães demonstra que é possível conciliar desenvolvimento económico, proteção ambiental e qualidade de vida. Isso foi reconhecido com a seleção de Guimarães como uma das 100 cidades europeias que assumem o compromisso da neutralidade climática. Voltou a sê-lo com a distinção como Capital Verde Europeia 2026.
O próximo ano acarreta responsabilidades acrescidas tanto para Guimarães como para Portugal. Que oportunidades antevê?
O título de Capital Verde Europeia é uma oportunidade para reforçar a visibilidade internacional de Guimarães e de Portugal, atrair investimento, turismo e conhecimento. Permitirá mobilizar a comunidade em torno de iniciativas científicas e ambientais, mostrar que a ação local pode inspirar mudanças globais e que cidades de média dimensão como Guimarães podem ser modelos inspiradores. Mais do que celebração, será um ano de compromisso, de legado e também de transformação.
Na sua opinião, quais são os desafios mais preocupantes que o território nacional enfrenta?
Portugal enfrenta fenómenos extremos como secas, ondas de calor, cheias e incêndios que põem em risco recursos naturais e comunidades. A gestão da água é prioritária, assim como a transição energética e a descarbonização. É também essencial travar o despovoamento do interior, proteger ecossistemas e investir na educação ambiental para mobilizar os cidadãos e torná-los mais preparados para os desafios climáticos.
Quais são os maiores desafios à implementação de políticas ambientais?
A mudança de comportamentos continua a ser um obstáculo, exigindo, também por isso, maior investimento em educação e sensibilização. Além disso, há ainda algumas barreiras legais que burocratizam os sistemas e dificultam a implementação de medidas concretas, nomeadamente na área da economia circular.
Por fim, faltam mecanismos eficazes de monitorização e avaliação que permitam medir resultados e ajustar políticas. Isso está ligado, muitas vezes, com as questões óbvias de alguma falta de investimento e de recursos humanos especializados. Seja como for, muitos destes desafios podem ser contornados se houver visão, resiliência e consensos alargados, como acreditamos que foi o caso de Guimarães.
Guimarães pode servir de modelo para o resto do país?
Sem dúvida. Guimarães demonstra que é possível um território industrial, histórico, Património da Humanidade, servir de inspiração para a transição climática, liderando pelo exemplo. O reconhecimento como Capital Verde Europeia, a presença na Lista A do CDP e o selo da Missão Cidades confirmam essa liderança. Demonstra, acima de tudo, que é possível fazê-lo com o envolvimento da comunidade, como ator principal da mudança.
Como é que o Laboratório da Paisagem contribui para a implementação de estratégias de desenvolvimento territorial?
O Laboratório da Paisagem surgiu para reforçar a ligação entre a autarquia e a academia e entre o território e os cidadãos, além de ser um importante suporte à decisão política através do trabalho na área da investigação, inovação e educação para a sustentabilidade. Hoje, é reconhecidamente um hub de inovação e investigação aplicado às cidades. Com uma equipa multidisciplinar que já trabalha para lá do território onde tem base, reforça a cooperação com outras cidades e empresas. Precisamos de apostar na ciência e educação como pilares essenciais para uma transição verde e justa, que ajude no desenho de territórios mais resilientes.
E o cidadão comum? Qual é o seu papel?
O cidadão é protagonista da transformação. O Ecossistema de Governação Guimarães 2030 mostrou que políticas climáticas só têm impacto se houver participação ativa. Cada gesto – separar resíduos, poupar água, optar por uma mobilidade mais sustentável – conta para diminuirmos a nossa pegada e para melhorarmos a qualidade de vida coletiva. Por isso, o cidadão deve ter um papel central nesta mudança, seja através do fomento da democracia participativa ou da forma como olhamos para o planeamento urbano das nossas cidades.
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