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A Flores do Campo deu cor ao Beato

Ana e Helena, duas irmãs vindas do Norte, construíram vizinhança a partir duma loja de flores.

Lisboa tem destas histórias: chegam em silêncio, instalam-se devagar e acabam por florescer à vista de todos. No Beato, entre antigas fábricas e ruas bairristas, uma nova pulsação urbana, a Flores do Campo. Helena e Ana vieram do Norte por amor e fincaram raízes através das flores, transformando uma mudança devida numa história de aprendizagem, ofício e comunidade: primeiro, na histórica Isaura Florista, em Lisboa; hoje, no Beato, onde a sua loja, Flores do Campo, não é apenas um comércio; é um lugar de cuidado, memória e pertença. Entre arranjos e clientes que se tornam amigos, as duas irmãs falam de tempo, sensibilidade e do que significa trabalhar todos os dias com algo tão belo quanto efémero.

Vieram do Norte, mas foi o amor que as trouxe para o Sul. De que forma essa mudança marcou a vossa vida pessoal e o vosso percurso profissional?

A mudança não foi fácil – era uma nova cidade, uma nova realidade e novas rotinas. A Ana integrou-se primeiro no mundo das flores, na Florista Romeira, na Avenida de Roma, e depois na Isaura Florista, na Praça de Londres. Foi através dela que eu também fui entrando neste universo, até começarmos a trabalhar juntas. Olhando para trás, essa transição acabou por ser decisiva para o nosso percurso profissional e para a vida que construímos em Lisboa.

São irmãs, partilham raízes e uma sensibilidade comum feita de flores. Como se manifesta essa ligação no vosso trabalho?

Sempre fomos muito próximas. Essa ligação pessoal acaba por se refletir no nosso trabalho: partilhamos a mesma sensibilidade estética e a mesma forma de olhar para as flores, o que facilita a colaboração e dá identidade ao nosso projeto.

Ana e Helena, fundadoras da Flores do Campo
Há cerca de 30 anos, na antiga Isaura Florista, costumam dizer que “o curso foi o trabalho”. Que memórias guardam desses primeiros tempos?

Guardamos memórias muito marcantes desse período. A Isaura foi uma figura central — não só como patroa, mas como referência humana e profissional. Foi ali que nasceu a nossa verdadeira paixão pelas flores: aprender os nomes, as técnicas, experimentar, criar e descobrir novas formas de trabalhar com o natural.

Após três décadas a trabalhar com plantas, mudou a forma como olham para o tempo, o cuidado e os ciclos da vida?

Passámos a olhar para o tempo de forma diferente. Estamos sempre ligadas ao mundo natural. As flores lembram-nos que tudo é cíclico e efémero. Isso tornou-nos mais atentas ao presente, às pequenas coisas e à beleza do quotidiano. Trabalhar com o vivo ensina-nos diariamente a desacelerar e a valorizar cada momento.

A escolha do Beato foi consciente. O que sentiram que o bairro pedia quando decidiram abrir ali uma loja?

O Beato precisava de comércio de proximidade e, em particular, duma florista — mas também dum espaço que trouxesse cor, cuidado e ânimo ao bairro. Sentimos que podíamos contribuir para isso coma nossa identidade e a nossa forma de trabalhar.

Para muitos moradores, a vossa chegada ao Beato teve um impacto visível no bairro. Como descrevem hoje a relação que criaram com a comunidade?

A relação com a comunidade tem sido muito calorosa. Sentimo-nos bem recebidas desde o primeiro dia e, como tempo, passámos a fazer parte da vida do bairro. Essa ligação é algo que valorizamos muito.

O que distingue uma loja de flores de outras tipologias comerciais no impacto que tem num bairro?

Uma florista trabalha com algo profundamente emocional. As flores acompanham momentos de celebração, luto, amor e memória. Cada arranjo é único e personalizado, o que cria uma relação muito especial com quem entra na loja – diferente de outros tipos de comércio.

As flores ensinaram-nos a importância do cuidado, da atenção aos detalhes e de viver o presente

Costumam dizer que as plantas e as flores falam por si e que podem ser uma forma de terapia. Qual foi a maior lição que o mundo vegetal vos ensinou?

As flores ensinaram-nos a importância do cuidado, da atenção aos detalhes e de viver o presente. Mostram-nos que a beleza pode ser frágil, mas é exatamente essa fragilidade que a torna tão significativa.

Há histórias, encontros ou momentos vividos na loja que guardam de forma especial?

Ao longo dos anos, criámos laços muito fortes com clientes que nos procuraram em momentos importantes das suas vidas – alguns delicados, outros felizes. Muitas dessas relações transformaram-se em amizades, o que torna o nosso trabalho ainda mais especial.

Para quem acredita não ter jeito nenhum para plantas ou arranjos florais, que conselhos simples deixariam para começar?

Mais do que talento, o essencial é curiosidade, sensibilidade e vontade de aprender. Com tempo, prática e gosto, qualquer pessoa pode desenvolver essa relação com as plantas e flores. É encarar o processo de aprendizagem com alegria e rapidamente se apanha o jeito; depois, é dar tempo para a criatividade fluir.

Para terminar, se uma flor pudesse simbolizar o percurso da Flores do Campo, qual escolheriam e porquê?

Escolhemos o girassol porque representa alegria, luz e lealdade, valores que identificam a nossa loja e a forma como nos relacionamos com quem nos visita.


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