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Os jardins botânicos da Universidade de Lisboa: Património científico, paisagístico e cultural 

Jardim Botânico Tropical (© César Garcia)  Os jardins botânicos da Universidade de Lisboa: Património científico, paisagístico e cultural representam uma riqueza única na cidade.

A cidade de Lisboa possui três jardins botânicos de grande relevância científica, histórica e paisagística, todos pertencentes à Universidade de Lisboa: o Jardim Botânico da Ajuda (JBA), o Jardim Botânico de Lisboa (JBL) e o Jardim Botânico Tropical (JBT).  

O JBA encontra-se sob a tutela do Instituto Superior de Agronomia, enquanto os outros dois estão sob a responsabilidade do Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Estes espaços não são apenas locais de lazer e contemplação, mas constituem verdadeiros laboratórios vivos de investigação, ensino e conservação, além de guardarem memórias importantes da evolução do conhecimento científico e do património cultural português. 

Jardim Botânico da Ajuda 

Localizado na encosta da Ajuda, próximo do Palácio da Ajuda, o jardim estende-se por 3,8 hectares estruturado em dois terraços desnivelados, oferecendo uma vista privilegiada sobre o estuário do Tejo. Com influência barroca, merece nota a monumentalidade das escadarias, balaustradas e fontes. Das obras artísticas, destacam-se a Fonte das 40 Bicas, a balaustrada e a estátua que representa o príncipe D. José. No que diz respeito à diversidade de espécies botânicas deve mencionar-se o alinhamento de jacarandás que, no final da primavera, oferece um cenário magnífico de cor. 

Jardim Botânico da Ajuda – tabuleiro superior (© Francisco Sá da Bandeira) 

Jardim Botânico da Ajuda – Fonte das 40 Bicas no tabuleiro inferior (© Francisco Sá da Bandeira) 

O Jardim Botânico da Ajuda é o mais antigo de Portugal. Foi fundado em 1768, durante o reinado de D. José I, sob iniciativa do Marquês de Pombal e foi projetado pelo naturalista italiano Domingos Vandelli. A sua criação tinha uma dupla função: servir como espaço de estudo e experimentação científica, mas também como jardim de recreio e instrução dos príncipes da Casa Real. 

Ao longo da sua história, o JBA desempenhou papéis diversos: foi pioneiro com gabinetes científicos (História Natural, Física Experimental, Química) e integrou uma biblioteca e a “Casa do Risco”, onde se produziam ilustrações botânicas. Após 1836, passou para a dependência da Real Academia das Ciências, sendo depois integrado na Escola Politécnica. Em 1873, com a fundação do JBL, parte das suas coleções foi para lá transferida. Regressou mais tarde à tutela da Casa Real e, desde 1910, está sob a responsabilidade do Instituto Superior de Agronomia. 

Atualmente, o JBA conserva cerca de 1100 espécies distribuídas por cinco áreas principais: o terraço superior que acolhe a coleção botânica propriamente dita, organizada por áreas fitogeográficas (África, Região Mediterrânica, América do Norte e Central, China e Japão, Europa Central e Atlântica, Região Macaronésia, América do Sul e Austrália); o terraço inferior com uma zona de jardim formal, com sebes topiadas de buxo e murta, cujos interiores são preenchidos sobretudo por coleções de roseiras e outras flores de época; o jardim dos aromas, dedicado a plantas aromáticas e medicinais; o arborinho (onde atualmente está instalado o Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro); e a zona da mata. 

Além do seu relevante valor científico como jardim botânico, o JBA apresenta também um importante valor patrimonial como jardim histórico, classificado como IIP – Imóvel de Interesse Público, de acordo com a legislação de Proteção: Decreto n.º 33 587, DG, I Série, n.º 63, de 27-03-1944. 

Jardim Botânico de Lisboa 

O Jardim Botânico de Lisboa, situado na colina de São Roque, no centro da cidade, foi inaugurado em 1878, ocupando cinco hectares entre a Avenida da Liberdade e o Príncipe Real. A sua fundação decorreu da necessidade de criar um espaço de ensino prático de Botânica junto à Escola Politécnica de Lisboa. 

Jardim Botânico de Lisboa – Classe (© César Garcia) 

Jardim Botânico de Lisboa – Lago da zona do arboretum (© César Garcia) 

De 1873 a 1876, com o impulso de Francisco Manuel de Melo Breyner (1837-1903), conde de Ficalho, lente da 9.ª cadeira, iniciaram-se as primeiras plantações com o apoio do botânico alemão Edmund Goeze (1838-1929), botânico com experiência adquirida nos jardins botânicos de Kew e Coimbra (entre 1866 e 1872).

Foi nesta altura que se desenhou a parte superior do jardim, denominada de Classe, onde as plantas se organizaram e que se enriqueceu de plantas com flores, assim como se organizaram de acordo com uma ordenação sistemática botânica as plantas em canteiros retangulares de grandes dimensões.

Muitos destes exemplares botânicos vieram do Jardim Botânico da Ajuda, de compras e trocas com os jardins botânicos de Kew, Paris e Berlim, assim como de pedidos dirigidos a diversas entidades estrangeiras e nacionais, sendo de destacar os territórios ultramarinos portugueses como Goa, Damão, Diu, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Em 1878 foi publicado o primeiro Index seminum do jardim. 

Terminada a parte superior do jardim, ainda sob a coordenação do conde de Ficalho, é construída a parte inferior, o arboretum, de acordo com o desenho do jardineiro francês Jules Daveau (1852-1929). Esta parte destinava-se a albergar árvores de grande porte. O seu projeto, construído em zona de declive, beneficiou de uma boa iluminação bem como realçou o ensombramento das árvores de grande porte. O desenho desta zona, do arboretum acompanhou o estilo romântico dos jardins, dotado com caminhos ondulados, lagos, linhas de água e cascatas. 

Em 1892 a administração do jardim é entregue ao botânico francês Henri Fernand Cayeux (1864-1948), diplomado pela Escola Nacional de Horticultura de Versalhes. É a ele a quem se deve a produção e criação de plantas ornamentais, para embelezar o jardim, como a Rosa ‘Bella Portuguesa’, híbrido da Rosa gigantea Collett ex Crép. É uma trepadeira muito vigorosa e resistente, podendo atingir mais de cinco metros de altura e uma das primeiras roseiras a florir no início da primavera. Cayeux foi, também, responsável pela realização de várias exposições de plantas. 

Nos anos 40 do século XX, o diretor botânico Ruy Telles Palhinha, transformou a parte superior do jardim, a classe, redesenhando os canteiros e reorganizando a inicial ordenação sistemática por uma organização das plantas através de critérios ecológicos. 

Hoje, o JBL conserva cerca de 1300 espécies, constituindo um verdadeiro hotspot de biodiversidade urbana. Em 2010, devido ao seu valor científico, paisagístico e arquitetónico, foi classificado como Monumento Nacional. É atualmente gerido pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa. 

Jardim Botânico Tropical 

Situado, desde 1914, na zona monumental de Lisboa, junto ao Mosteiro dos Jerónimos, o jardim ocupa sete hectares nas proximidades do Palácio de Belém. Partilha a centralidade com outros importantes espaços culturais da capital, como a Praça do Império, o Museu Nacional dos Coches, o Centro Cultural de Belém, o Museu da Marinha, o Museu Nacional de Arqueologia, o Planetário Calouste Gulbenkian, a Igreja da Memória, o Jardim Botânico da Ajuda e o Palácio da Ajuda. Estende-se por uma encosta, voltada a sul, ao longo de 800 metros com vista para o rio Tejo. Rico em água e beneficiado por um microclima privilegiado na cidade, foi enriquecido com uma grande diversidade de espécies vegetais autóctones e importantes espécies exóticas, sobretudo provenientes de regiões tropicais e subtropicais. 

Jardim Botânico Tropical – entrada principal com palmeiras (© César Garcia) 

Jardim Botânico Tropical – lago principal (© César Garcia) 

O Jardim Botânico Tropical foi fundado em 1906 no contexto da formação agrícola colonial. Inicialmente, era chamado Jardim Colonial. A sua primeira localização foi nas estufas da Quinta das Laranjeiras, mas em 1914 foi transferido para a cerca do Palácio dos Condes da Calheta, junto ao Palácio de Belém, onde permanece. 

A sua função original era apoiar o ensino da Agronomia Tropical, reunindo espécies de interesse económico vindas das então colónias portuguesas. Por isso, desde cedo se destacaram plantas como o cafeeiro, a pimenteira, a caneleira, a bananeira ou a goiabeira. Ao longo de sete hectares, a diversidade de espécies tropicais e subtropicais (cerca de 600) inclui ainda palmeiras, figueiras, ginkgos, dragoeiros e fruteiras exóticas. 

O jardim tem também um importante património arquitetónico e estatuário. Conserva o Palácio dos Condes da Calheta (século XVII), a Estufa Principal de ferro (1914) e as estufas do chá e do café (1947). A sua estatuária é notável: esculturas barrocas como a Morte de Cleópatra (Mazzuoli), a Caridade Romana (Ludovici) ou Éolo, Deus dos Ventos (oficina de Machado de Castro), além de bustos que representam povos das antigas colónias. 

Um momento marcante foi a Exposição do Mundo Português de 1940, quando o JBT acolheu a Secção de Etnografia Colonial, dirigida por Henrique Galvão. Após a exposição, parte das construções temporárias foram demolidas, tendo algumas permanecido como a Casa do Leão e a Casa Colonial. 

Mais recentemente, com o encerramento da Expo’98, alguns elementos arquitetónicos foram integrados no Jardim de Macau, dentro do JBT, como a Porta da Lua e o Arco de Macau, reforçando a sua dimensão memorial e simbólica. 

Em 2007, o JBT foi classificado como Monumento Nacional. Desde 2015, encontra-se sob gestão do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa. 

Considerações finais 

Em conjunto, os três jardins botânicos de Lisboa constituem um singular património botânico, científico e cultural. Cada um guarda uma identidade própria. Com o seu valioso património histórico, paisagístico e as suas coleções vivas, integram igualmente um banco de sementes e um herbário. Constituem importantes centros de apoio à investigação botânica e desempenham um papel fundamental na divulgação científica e educativa, tanto junto do público em geral como das escolas. 

Atualmente, os três jardins continuam a exercer funções essenciais: são autênticos reservatórios de biodiversidade, espaços de investigação e ensino universitário, bem como locais de fruição cultural e lazer para a comunidade. A sua conservação requer investimento e cuidado constantes, perante as crescentes pressões urbanas e os desafios das alterações climáticas. Ainda assim, representam uma herança insubstituível no contexto do património português, oferecendo à cidade um legado que une Natureza, ciência e cultura, e consolidando Lisboa como um centro de referência internacional no estudo e preservação da flora mundial. 

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