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Amazónia em ferida aberta: o paradoxo da conferência do clima 

Às vésperas da COP30, que decorre no coração da Amazónia, uma Amazónia ferida, a floresta que sustenta o equilíbrio do planeta volta a ser palco de contradições profundas. Que conferência do clima é esta, construída sobre o desmatamento? 

COP30, Amazónia e as fronteiras da devastação 

No momento em que escrevo esta crónica, estamos a três dias do início da COP30. E porquê trazer este tema para uma revista de jardins? Porque o evento se realiza em Belém do Pará, no Brasil, na região da amazónia, que continua ferida por escolhas humanas, no coração do maior, mais importante e mais ameaçado jardim da Terra: a floresta Amazónica. 

A Amazónia desempenha um papel vital na absorção de carbono para o planeta e na preservação da biodiversidade. Com a contínua desflorestação e incêndios de que é alvo por parte da indústria da madeira, dos agrotóxicos, da mineração, da carne, da soja, do milho e do açúcar, o planeta vai continuar a aquecer com todas as consequências que esse aquecimento acarreta.

Um palco construído sobre a floresta ferida 

Para a preparação da COP30 abriu-se mais uma ferida na pele dessa terra de veias abertas e saúde muito debilitada. Escavadoras abrem caminho pelo chão da floresta, aterrando áreas húmidas para pavimentar a estrada que cortará uma área protegida.

Aliás, é impossível ignorar o impacto brutal sobre a amazónia ferida, uma realidade marcada pelo progresso e pelo desmatamento, que contradiz o próprio propósito de uma conferência ambiental.

Na construção dessa estrada, com cerca de 30 km, desmatou-se muita floresta tropical, desrespeitaram-se aldeias indígenas, cemitérios sagrados e pessoas cujo ganha-pão era a colheita e comercialização de açaí — sim, o açaí que está tão na berra no Ocidente vem da Amazónia e é fruto de uma palmeira (Euterpe oleracea). Estas palmeiras foram arrasadas em nome do progresso e da conferência do clima, contradizendo o próprio propósito de uma conferência ambiental.

Essa estrada já ficará construída para facilitar o transporte, sobretudo da soja até aos portos de embarque. 

Contradições à mesa e nos bastidores 

Além disso, no recinto da COP está excluída a venda de produtos da floresta extraídos de forma artesanal, provenientes de agricultura familiar e comunitária. Estes alimentos — como a maniçoba, o tucupi e o próprio açaí — são parte da cultura indígena local, que luta diariamente para proteger uma amazónia ferida pela exploração desenfreada. 

Muitos dos jornais que fazem a cobertura do evento são patrocinados por grandes empresas poluidoras, responsáveis pelo envenenamento de rios com agrotóxicos usados nas plantações superintensivas de palmeira-dendê para exportação de óleo de palma. Estas empresas são ainda acusadas pelas comunidades indígenas e quilombolas de trabalho forçado, ameaças, intimidações e violações dos direitos humanos. 

As denúncias revelam que mais da metade dos 107 mil hectares registados por uma destas empresas resulta de títulos de terra fraudulentos. Há ainda interesses financeiros associados à mineração de bauxita e à venda de créditos de carbono.

O Grupo Globo, Valor Econômico e CBN seguem a mesma linha: o seu projeto COP30 Amazônia também conta com patrocínios de multinacionais pouco amigas do ambiente e com as garras bem enterradas na selva e no potencial económico que esta representa. O interesse destas corporações, apesar dos compromissos com a sustentabilidade, é puramente extrativista — onde a Natureza é vista apenas como mercadoria. Definitivamente, nesta região, amazónia ferida descreve bem o impacto da exploração econômica desenfreada. 

O rol de irregularidades, contradições, falta de transparência e questões litigiosas das empresas patrocinadoras da COP30 é deveras inquietante e revela um greenwashing ao mais alto nível. 

Entre o discurso e a ação: o futuro em jogo 

Segundo um jornal brasileiro, o “sucesso da conferência não será medido apenas pelos discursos em Belém, mas pela capacidade de o Brasil e o mundo enfrentarem as contradições que alimentam a fome, aceleram o desmatamento e corroem o nosso futuro climático — exigindo uma revisão urgente desse padrão produtivo e financeirizado”. Durante este processo, a noção de amazónia ferida está sempre presente, reforçando o desafio global.

Para terminar, deixo a recomendação do livro de Manuel de Carvalho, editado em maio deste ano, Amazónia, viagem por uma ferida aberta no planeta, cuja contracapa recorda: “Da criação do mundo até 1970, a humanidade destruiu 0,5% da maior e mais rica floresta tropical do mundo; daí até aos nossos dias arrasou mais 20%. E continua a arrasar. […] Tanto como um prodígio da Natureza, a Amazónia é um monumento à humanidade. Que a desbravou, a amou, a explorou, a destruiu e lhe deixou feridas. Curá-las é um desafio global”. 

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