
A invenção da agricultura moldou definitivamente o modo de vida da Humanidade, bem como a paisagem global. Através dela podemos criar paisagens sustentáveis, onde o Homem consegue suprir as suas necessidades enquanto garante o bom funcionamento dos sistemas naturais, ou podemos continuar a devastar ecossistemas segundo o modelo economicista atual com a sua produção maciça. Apesar de ser um contrassenso, este modelo tende a pôr em causa a sua própria existência, dado sobrecarregar os ecossistemas do qual depende.
Existem, porém, pessoas que tentam alterar o paradigma. Em Portugal, descobrimos o Lugar da Terra, uma quinta gerida por Tânia Carvalho e Job Leijh segundo os princípios da agricultura regenerativa, agricultura sintrópica ou agrofloresta. Paralelamente, têm um projeto educativo em Torres Vedras onde exploram os temas da agroecologia e de alimentação saudável. Aí, levam as crianças a cultivar e a cozinhar no exterior. São eles que nos explicam de seguida o que implica fazer este tipo de agricultura.
Como nasceu o Lugar da Terra e qual é a visão por trás do projeto?
O Lugar da Terra nasceu em 2014, quando conseguimos materializar no nosso terreno aquele que viria a ser o nosso projeto: responsabilidade por este pedaço de terra onde nos comprometemos a aumentar a biodiversidade e criar abundância de alimentos, em permanência.
A Tânia vem da área da nutrição e o Job do cinema. Como é que os vossos caminhos tão diferentes se cruzaram para dar origem a esta ligação profunda com a terra?
A minha área, da alimentação, tem tudo que ver com a agricultura. Embora nos tenhamos (enquanto sociedade) distanciado muito da origem dos alimentos, a nossa saúde depende profundamente da saúde do solo. E o cinema foi, na verdade o mote para a mudança. Propusemo-nos a filmar o workshop com o Ernst Gotsch em 2011 – o primeiro em Portugal – e não conseguimos ambos ignorar o que testemunhámos ao longo daqueles 15 dias intensivos.

Como explicariam de forma simples o conceito de agricultura regenerativa e em que medida difere da agricultura biológica convencional?
A agricultura regenerativa, baseada em princípios agroecológicos, foca-se na reconstrução dos ecossistemas e na sua resiliência, restabelecendo a biodiversidade natural enquanto produz alimento para a alimentação humana, sendo uma abordagem com visão a longo prazo e possibilidade de produção a curto prazo. Os seus pilares são a pouca ou nenhuma mobilização do solo, a utilização de cobertura do solo e a biodiversidade. Na agricultura biológica convencional, a prioridade é a produção. Ainda que sem utilização de produtos químicos, não tem necessariamente na sua prática o foco na biodiversidade ou no bem-estar do sistema de uma forma integrada.
É a mesma coisa que agricultura sintrópica ou agrofloresta?
A agricultura regenerativa é um termo que pode ou não abranger sistemas com árvores, podendo referir-se a um sistema focado na produção de hortícolas por exemplo. A agrofloresta, por outro lado, junta a produção de alimentos à implementação de sistemas florestais, (re)criando o que ancestralmente era a fonte da nossa alimentação: a floresta. Já a agricultura sintrópica – desenvolvida pelo Ernst Gotsch –, enquanto agrofloresta, é bastante mais específica na sua metodologia no sentido que considera as interações entre as espécies, as funções de cada uma, a sua sucessão natural e uma manutenção baseada na abundância e elevada biodiversidade do sistema.
O que praticamos no Lugar da Terra é uma mistura entre linhas de árvores em modo de agricultura sintrópica – que sempre foi o nosso ponto de partida – intercalada com camas de produção anuais sem mobilização do solo.


Um dos princípios fundamentais da regeneração é a saúde do solo. Que práticas adotam no Lugar da Terra para “construir” solo vivo sem recurso a fertilizantes sintéticos ou químicos?
Plantamos espécies de crescimento rápido que produzem madeira e folhas para podermos podar com frequência e utilizar como cobertura do solo, alimentando-o. É primordial este conceito de que há vida no solo e precisa de ser alimentada para que haja regeneração. Portanto, estamos sempre a cortar, a podar e a deixar a matéria orgânica a decompor-se no local diretamente.
Aplicamos também composto nas nossas camas de plantação. Composto feito por nós ou comprado no nosso produtor local, certificado biológico (livre de sementes), o que nos permite fazer sementeira direta de forma abundante ao mesmo tempo que cobrimos o solo. Portanto, cada vez que fazemos uma nova plantação, colhemos o que temos plantado, colocamos composto e plantamos uma nova combinação de espécies, permitindo que se entreajudem (crescendo mais saudáveis) e construindo um solo também mais diverso sem ser esgotado.
A agricultura regenerativa tem influência na conservação da água no solo e, consequentemente, na rega?
Com a melhoria do solo, a menor necessidade de rega e a maior conservação da água no solo são visíveis. A acumulação de matéria orgânica ao longo do tempo e, subsequentemente, de mais vida no solo, torna o sistema mais complexo e com mais vida.
É possível aplicar estes princípios a uma pequena escala, por exemplo, um pequeno quintal ou horta urbana?
É sim, os princípios da agroecologia são aplicáveis a qualquer dimensão.
Podem-se cultivar todas as espécies hortícolas e árvores fruteiras? Como selecionam os vossos cultivos?
Começamos por entender quais as espécies nativas, porque essas estão naturalmente adaptadas ao nosso clima. Depois, consideramos aquelas que nos agradam mais, aquelas que mais consumimos e as outras espécies que poderão assumir a função de produzir matéria orgânica e ajudar o sistema a implementar-se. Plantamos todas as espécies que pretendemos implementar numa linha da mesma vez: as espécies frutíferas, as de produção de matéria orgânica e/ou as fixadoras de azoto, e as dos diferentes estratos (diferentes alturas).
Olhando para o futuro, o que gostavam de ver mudar no panorama da agricultura em Portugal?
Regras de abatimento de árvores mais rigorosas, incentivos aos agricultores que trabalham práticas ecológicas e ensino de agroecologia conjuntamente com alimentação saudável nas escola.
Fotografia de Jody Daunton
Veja o vídeo:
Agricultura Biológica: Enciclopédia de Jardinagem #16