
A Academia da Paisagem é uma plataforma de aprendizagem que pretende criar cidadãos ativos.
Numa sociedade marcada por alterações climáticas profundas, é cada vez mais notória a importância das árvores, dos espaços verdes nas cidades e do ordenamento da paisagem feito com consciência e visão de futuro. Deste modo, estes temas devem ser explicados à sociedade por profissionais especializados para serem corretamente entendidos. Ou seja, profissionais que partilhem de forma clara, prática e à face do conhecimento científico atual questões como quais as espécies mais adaptadas ao local, gestão da água, regeneração do solo, promoção de biodiversidade e cuidados na gestão e manutenção de espaços verdes.
Assim, o conhecimento e a aplicação destas temáticas revelam como a Arquitetura Paisagista tem e pode ter cada vez mais um papel transformador na sociedade e na forma como intervimos no território.
Além disso, estes temas devem ser partilhados, debatidos por todos e levarem a ações concretas. Logo, não é necessário somente um exercício de aquisição de conhecimentos, reflexão e debate, é essencial criar cidadãos ativos.
Com este espírito de fomentar novas aprendizagens, surgiu a Academia da Paisagem, criada por Matilde Jézéquel (MJ) e Noel Kingsbury (NK).
O que é a Academia da Paisagem e como é que este projeto nasceu?
MJ: Um espaço de aprendizagem e de partilha de conhecimento na área da arquitetura paisagista, dos jardins e das plantas em Portugal. Uma plataforma que divulga projetos inovadores e ideias inspiradoras, através de encontros, conferências e webinários. O projeto começou na Primavera de 2026 com o apoio da Sigmetum, num evento de sala cheia em Setúbal intitulado “Planting Wild”. A Academia da Paisagem privilegia e fomenta a partilha de projetos sustentáveis, desenhados para enfrentar situações climáticas extremas (seca e inundações). Projetos que não consumam muita água, que promovam a biodiversidade e que melhorem a qualidade social e ambiental.
NK: A Academia da Paisagem é um projeto paralelo à Garden Masterclass, em Inglaterra, e à Academia del Paisaje, em Espanha. Como vivo em Portugal e criei a GM com muito sucesso juntamente com uma colega em Inglaterra, quis trazer algo semelhante para o panorama português.


Que tipo de atividades e iniciativas costumam organizar para a comunidade?
MJ: Como referido, inaugurámos este projeto com o evento “Planting Wild” onde reunimos especialistas da área da arquitetura paisagista e realizámos uma visita de campo ao viveiro de espécies nativas em Portugal: a Sigmetum. Desde então, temos vindo a realizar webinários com diversos profissionais nacionais e internacionais, bem como visitas guiadas a jardins (Gulbenkian, Serralves etc). Todos estes eventos têm como intuito partilhar o que está a ser feito e motivar para o muito que ainda está por fazer.
Nos dias 23 e 24 de outubro vão promover o evento “Árvores para o futuro”. De que se trata?
MJ e NK: À medida que as alterações climáticas se tornam mais evidentes, as árvores revelam-se cada vez mais indispensáveis em ambiente urbano. No entanto, enfrentam muitos riscos: eventos meteorológicos extremos, novas pragas e doenças, poluição, desvalorização face a um mercado de construção imobiliário mais forte e, não menos importante, uma falta de gestão e monitorização cuidada. Assim, através de uma seleção adequada de espécies e cultivares adaptadas às condições do seu contexto, podemos ajudar a evitar, pelo menos, alguns destes problemas.
Promovendo mais sensibilização e conhecimento nestas matérias, pretendemos que a árvore, com o seu papel crucial na melhoria ambiental e social das cidades, seja mais respeitada e valorizada, mais abundante e presente. Para cidades mais saudáveis e resilientes.
Este evento irá juntar especialistas nacionais e internacionais com o objetivo de debater a importância das árvores em meio urbano. Quais as espécies mais resilientes num momento de eventos extremos cada vez mais frequentes; como plantar e manter árvores nas cidades; projetos em ação em Portugal e na Europa; e como envolver a comunidade para que as árvores estejam bem cuidadas e sejam mais presentes.

Consideram que Portugal está bem posicionado no que diz respeito aos espaços verdes e à gestão do arvoredo urbano?
MJ: Face às exigências climáticas e a uma crescente valorização e consciência da sociedade sobre a importância dos espaços verdes e das árvores em cidade, tem havido melhorias. No entanto, regra geral, as cidades portuguesas continuam a ter um grande défice de áreas verdes e de árvores em arruamentos. Há imenso trabalho a ser feito.
NK: Há muito por fazer – a diversidade arbórea em Portugal é tradicionalmente baixa: precisamos de mais árvores em cidade, mas também de maior diversidade. Ou seja, a diversidade minimiza os riscos – de doenças, pragas, stress térmico, etc. Além disso, é importante que tenhamos árvores grandes, com copas largas, para proporcionar mais sombras.
Quais são os maiores erros que se cometem na gestão e manutenção das árvores urbanas?
MJ: Espécies erradas no sítio errado; plantação em alturas arriscadas de stress hídrico (ex. verão), mas sobretudo, uma falta de gestão e manutenção lamentável! Podas erradas, ausência de tutoragem ou tutores a esganar o tronco da árvore, troncos repletos de feridas por embate de carros em estacionamentos e caldeiras mal preparadas, resultando em raízes atrofiadas em caldeiras quase impermeáveis de alcatrão ou betão.
NK: Tenho visto podas terríveis! E, muitas vezes, as pessoas, mesmo sendo profissionais de paisagismo, nem sempre se apercebem da amplitude com que as raízes das árvores se espalham, pelo que muitas obras de escavações em cidade podem causar danos fatais.
Que principais mudanças têm visto nos projetos de jardins e espaços verdes em Portugal, especialmente face aos desafios das alterações climáticas e à escassez de água?
MJ: Uma preocupação crescente em utilizar espécies nativas e resistentes a longos períodos de seca, mas também uma preocupação em abrir novamente as linhas de água outrora impermeabilizadas através de parques e restruturação de linhas ribeirinhas, respondendo às problemáticas de cheias, também cada vez mais frequentes.
O que gostavam de ver mudar num futuro próximo?
MJ: Plantação massiva de árvores em cidade e conversão de espaços abandonados na cidade em parques, jardins e hortas comunitárias! Seja do mais pequeno canteiro do bairro até a espaços mais amplos, sempre com o envolvimento dos cidadãos, para uma sociedade mais consciente e de forma a garantir a manutenção da estrutura verde a longo prazo.
NK: Mais diversidade de espécies arbóreas, tal como sugerido; regimes hídricos mais eficientes para a rega de árvores jovens, o que poderia envolver a comunidade, como é o caso da app para regar árvores jovens que está a ser utilizada em Berlim. Mais apoio das entidades locais e públicas aos programas de plantação e cuidado de árvores, com um maior envolvimento da sociedade civil.
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