
Neste espaço com exposição privilegiada a sul, o paisagismo transforma-se num exercício de equilíbrio entre técnica e emoção.
O canteiro encontra-se sobranceiro à entrada da casa, diante do terreiro onde a família desfruta de refeições ao ar livre, sobretudo pela privilegiada exposição a sul, característica essencial para este exercício de paisagismo e que promove a possibilidade de criar um cenário enfeitiçado entre o violeta e o vermelho. São sobretudo tons apaixonados de púrpura, rosa e laranja.
Desenhar com plantas: gradação, leveza e leitura visual
Tons escolhidos, segue-se a disposição para fazer o enlace entre as cores, com graduação, confundindo-se quase quando as folhas dos diferentes tons se tocam, sem choque visual e livres de se embrenharem. Aqui desenhei os poemas vegetais cromáticos; sem palavras, com plantas. Sinto um enorme prazer em conseguir esta leitura que decompõe as cores retirando pontos finais evidentes na passagem de tons. São paisagens cuja leveza é terapêutica e responde a qualquer apresentação atmosférica. Brilha com céu azul, ordena nos dias cinzentos com elegância subtil.


Desviar o olhar: altura, estrutura e ocultação sensível
Premissas pedidas como condicionante à imaginação do projeto, resumiram-se a encontrar uma solução para atenuar as vistas sobre o telhado das construções vizinhas.
Nesta questão propus contrariar a tendencial leitura horizontal do canteiro, levando o interesse e a surpresa para o horizonte com a imponência que distingue o Ensete vetricosum cv.’Maurelii’. O espaço a trabalhar continha de origem uma sebe de Buxus sempervirens, que respeitei e aproveitei para servir de complemento ao cenário que iria instalar. Removi toda a densidade de Lavandula angustifolia, uma vez que também iria melhorar a qualidade do solo, o que inevitavelmente perturbaria os exemplares. Sabendo que esta espécie é muito pouco tolerante a interferências no seu sistema radicular, a sua resposta a este processo seria totalmente aleatória e sem garantir um efeito que satisfizesse. O Prunus cerasifera, também presente de origem no jardim, servirá de tutor para o crescimento em altura de Monstera deliciosa e Philodendron erubescens que irão no futuro complementar a copa da árvore, cumprindo adicionalmente a questão prática de ocluir a vista sobre os telhados vizinhos, através do efeito de desvio de atenção para a emblemática folhagem destas duas espécies trepadeiras.
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Optei por contornar a opacidade total com a técnica convencional de preenchimento do gradeamento com espécies trepadeiras, senão por distrair a visão através do aparato no lançamento das folhas dos exemplares de Ensete ventricosum cv. ‘Maurelii‘, e a vantagem de nos inebriar com os veios alaranjados sempre irregulares que à luz forte do sol servem de telas naturais, ou seja, as barreiras visuais pretendidas.
O crescimento muito acelerado desta espécie vai ao encontro das expectativas dos donos da casa, sensíveis à magia que a caracteriza. Contudo, exemplares de Cordyline australis cv. ‘Chocolate Mint’ reforçarão o fechamento que se quer na tela, assumidamente mais demorado. Cada espécie tem, em fases diferenciadas, a mesma função.


Texturas, cinzentos e movimento: o detalhe que equilibra
O cinzento da Yucca rostrata, Jacobaea maritima syn. Senecio cineraria e da Salvia officinalis funcionam como condutores entre manchas cromáticas e para mudar o foco. Introduzi movimento usando a ilusão ótica das formas circulares que o grupo de suculentas provoca, enquanto a sua cor de céu nublado de inverno resulta eficazmente, pois renova o balanço entre os rosados e os laivos entusiastas de laranja dos vários cultivares de Phormium tenax. Neste projeto abordei muito os laivos cromáticos que as novas propostas da lista de cultivares que se apresentam no mercado permitem pintar a paisagem. Essa interpretação no paisagismo pode levar à criação de efeitos muito abstratos quando todo o cenário de paisagem do jardim é apreciado à distância, mantendo, por outro lado, o momento empático de admirar até o humor das espécies, como sempre induz a Neoregelia carolinae cv. ‘Fancy’, as formas, feitios e padrões que nos levam a descobrir plantas desconhecidas ou a acrescentar, numa conversa invariavelmente agradável, algo de que gostamos de partilhar sobre um exemplar encontrado na composição do canteiro.
Leveza como conceito e emoção final
As flores de época da Plumeria alba e do Loropetalum chinensis confundem-se com as cores permanentes na folhagem da Cordyline fruticosa cv. ‘Mambo’, C. fruticosa cv. ‘Rumba’, C. fruticosa cv. ‘Tango’, C. australis cv. ‘Burgandy’, Begonia rex cv. ‘Pink’, Tradescantia cerinthoides cv. ‘Pink Furry’ ou Iresine diffusa f.herbstii cv. ‘Brilliantissima’ entre matizes que variam, e o resto é poesia de cores suaves que conseguem contrastar discretamente, como pinceladas ligeiras na paisagem pensadas para não contrariar a Natureza. O tema desta composição é a leveza e o elenco de espécies selecionadas, que cumprem, quer pela forma e pelo tom, a sensação na apresentação do resultado final.

Exotismo em Lisboa: risco controlado e conhecimento climático
O exotismo também se revela na escolha de espécies inesperadas com a presença de Heliconia rostrata e de um exemplar de Ravenala madagascariensis, ou árvore-do-viajante, cautelosamente plantado numa posição junto à parede de onde beneficiará do efeito de irradiação de calor, tão essencial durante os meses mais frios do inverno, para esta espécie de elevada sensibilidade e no limite da rusticidade se considerarmos o clima de Lisboa.
LISTA DE ESPÉCIES USADAS NO PROJETO
Monstera deliciosa | Plumeria rubra | Cordyline australis cv. ‘Chocolate Mint’ | Cordyline australis cv. ‘Burgandy’ | Phormium tenax | Phormium tenax cv. ‘Purpureum’ | Loropetalum chinensis | Begonia rex cv. ‘Pink’ | Echeveria cuspidata var. zaragozae cv. ‘Pink’ | Neoregelia carolinae cv. ‘Fancy’ | Phoenix roebelenii | Agave potatorum cv. ‘Kichiokan’ | Dracaena marginata | Heliconia rostrata | Ravenala madagascariesis | Philodendrone rubescens | Cordyline fruticosa cv. ‘Mambo’ | Cordyline fruticosa cv. ‘Tango’ | Cordyline fruticosa cv. ‘Rumba’ | Salvia officinalis | Yucca rostrata | Tradescantia cerinthoides cv. ‘Pink Furry’ | Jacobaea maritima syn. Senecio cineraria | Iresine diffusa f. herbstii cv. ‘Brilliantissima’ | Ensete vetricosum cv. ‘Maurelii
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