Lições da Natureza

Luísa Ferreira Nunes num cenário natural

Entre o rigor da ciência e o assombro silencioso de quem sabe parar para ver, há uma coerência rara na forma como Luísa Ferreira Nunes habita o mundo. Nesta conversa, a propósito do seu mais recente livro, Lições da Natureza, falámos da vida entre prazos e polinizadores, entre a observação minuciosa e a intuição de que só o tempo desacelerado permite. Luísa lembra-nos que a Natureza não é apenas cenário, é sistema, e que talvez o maior erro do nosso tempo seja não a escutarmos com a atenção que ela exige.

Ouvi dizer que a sua vida se passa entre dois mundos. Como se consuma essa dialética?

Entre o mundo das exigências diárias e o mundo natural, onde o tempo abranda quase até desaparecer. No primeiro, há listas, prazos, respostas, decisões e expectativas dos outros. No segundo, há observação sem relógio, atenção sem meta imediata, presença. Quando estou mergulhada no mundo vivo, a ver relações entre organismos, ritmos, detalhes, deixo de funcionar por tarefas e passo a funcionar por perceção. Essa alternância mantém-me inteira. Uma complementa a outra, e já não as consigo ver separadas.

“A ciência não me tirou o lado dito mágico; deu-me mais camadas de leitura”

Ao acompanhar o seu trabalho, é difícil não sentir encantamento. A ciência alguma vez a afastou desse lado mais mágico da Natureza?

Não. Aproximou-me ainda mais, mas mudou o tipo de relação. O meu encantamento não é apenas estético, é naturalista. Não fico só pela impressão geral; gosto de perceber o que estou a ver, como funciona, onde se encaixa. Já não é apenas “isto é bonito”; é “o que é isto exatamente, como vive, que estratégia usa”. Gosto de saber nomes científicos, de os guardar, de os reconhecer. O latim tem uma sonoridade e uma precisão que me atraem. Há algo de elegante e até extravagante nesses nomes que carregam uma história de classificação e de parentesco. Quando sei a que família pertence uma planta ou um animal, já antevejo traços anatómicos, comportamentais e funcionais. É quase como ler uma biografia abreviada.

A ciência não me tirou o lado dito mágico; deu-me mais camadas de leitura. Posso olhar de forma sensorial, intuitiva, mas também estrutural e comparativa. Posso apreciar a forma e ao mesmo tempo a função, o padrão e a estratégia. Para mim, essas abordagens não competem; convivem. É isso que mantém o encantamento vivo e durável.

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Tornou-se uma voz ativa na comunicação de ciência. Em que momento sentiu que não bastava investigar, que era preciso partilhar este conhecimento com o grande público?

Quando percebi que muito do que sabemos sobre como a Natureza resolve problemas não está a ser usado fora de círculos fechados. Era como ter mapas úteis guardados numa gaveta. Assim, explicar, contar e mostrar era continuação do trabalho, não um extra. Traduzir é também cuidar do conhecimento.

Luísa Ferreira Nunes debruçada sobre rio

Em Lições da Natureza, a ideia central é que o mundo vivo já resolveu muitos dos problemas que enfrentamos. Que soluções são essas? Houve alguma que a tenha surpreendido particularmente?

Formas de poupar energia, de usar materiais sem desperdício, de cooperar sem contratos, de regular excessos sem polícia, de construir estruturas leves mas resistentes. Sistemas onde nada é lixo definitivo e onde a falha de uma parte não destrói o todo.

O que mais me surpreendeu foi ver como muitos sistemas se mantêm estáveis através de milhares de pequenos ajustes locais, quase como uma conversa contínua entre partes vivas. Por exemplo, o ciclo de vida do peixe-pescador… não vou contar, fica em suspense para os leitores do meu novo livro.

As alterações climáticas marcam profundamente a nossa experiência coletiva. Qual é a instrução da Natureza que não estamos a ouvir?

Que excesso cobra sempre preço. Que ciclos fechados são mais seguros do que linhas de consumo sem regresso. Variedade é proteção. Dependência única é perigo. A Natureza repete isto em todo o lado, nós é que insistimos em atalhos.

Trabalha com o mundo dos mais pequenos, invisível para a maioria de nós. Ainda vamos a tempo de reaprender a olhar?

Vamos, sim. Mas implica mudar o modo como nos movemos no mundo. Os insetos não se oferecem a quem passa depressa. Revelam-se a quem abranda, a quem se aproxima, a quem fica um pouco mais do que o habitual junto de uma folha, de uma flor, de um tronco, de um muro ao sol. Assim, exige treinar a atenção para o que não faz barulho, para o que vive numa escala que a vida urbana nos ensinou a ignorar. E vale a pena porque os insetos são um triunfo de diversidade, de invenção biológica, de adaptação, que detêm um privilégio raro: a metamorfose. A possibilidade de um mesmo ser viver várias vidas dentro da mesma vida, com corpos e funções diferentes, quase como se mudasse de profissão e de mundo ao longo do tempo.

São sistemas completos, precisos, com anatomias e comportamentos desenhados por uma história evolutiva longuíssima. Reaprender a olhar passa por esse gesto humilde de aproximação. Não é preciso saber tudo, mas ajuda aprender a reconhecer formas, famílias, padrões. De repente o jardim, a rua ou um canto de parede deixam de ser fundo e passam a ser habitat. E, quando isso acontece, o invisível torna-se próximo.

Se pudesse guiar os nossos leitores por um jardim, qualquer jardim, que gestos invisíveis os convidaria a fazer?

Ficar imóvel o tempo suficiente para que a vida retome o movimento à sua volta. Seguir com os olhos um percurso minúsculo, uma formiga, um polinizador, uma gota de água numa folha. Reparar em sinais de uso, de troca, de desgaste e regeneração. Por fim, o jardim deixa de ser cenário e passa a ser uma conversa viva.

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