Margaridas: como distinguir margaridas, malmequeres e outras flores parecidas

margaridas

Brancas com coração amarelo, amarelas de alto a baixo, pequenas no meio do relvado ou formando grandes tufos nos canteiros: chamamos “margarida” a flores muito diferentes. E o mesmo acontece com o nome malmequer. Afinal, o que é uma verdadeira margarida? Onde entram os crisântemos, as margaridas-inglesas e as chamadas margaridas-africanas? Um pequeno guia botânico para desfazer uma grande confusão — e perceber também como cultivar cada uma delas.

Afinal, o que é uma margarida?

Poucas flores são tão imediatamente reconhecíveis como uma margarida. Um centro geralmente amarelo, rodeado por uma coroa de “pétalas”: quase um desenho infantil de uma flor. Talvez por isso o nome tenha acabado por viajar de planta em planta, tornando-se uma espécie de palavra coletiva para muitas flores com a mesma aparência.

Botanicamente, porém, “margarida” não designa uma única espécie nem sequer um género. A maioria das plantas a que damos este nome pertence à grande família Asteraceae, também conhecida tradicionalmente como Compositae. Nela encontramos igualmente os crisântemos, girassóis, ásteres, calêndulas e muitos dos nossos malmequeres.

E há aqui uma primeira surpresa: aquilo a que chamamos uma flor é, na realidade, uma inflorescência formada por muitas pequenas flores, reunidas num capítulo. Nas margaridas típicas, as flores do centro são tubulares e agrupam-se formando o chamado disco; à volta dispõem-se flores liguladas, cuja corola alongada parece uma pétala. É este engenhoso mosaico botânico que produz a “flor” que reconhecemos à distância.

Bellis perennis: a pequena margarida dos prados

Se tivermos de apontar a planta que mais legitimamente responde pelo nome de margarida em Portugal, uma das candidatas mais evidentes é Bellis perennis. A Flora-On regista-a precisamente com os nomes comuns bonina e margarida e considera-a autóctone em Portugal continental. Surge em prados, caminhos, clareiras, incultos e outros locais relativamente húmidos.

É a pequena margarida que aparece rente ao solo, muitas vezes no meio dos relvados. Forma uma roseta de folhas basais e eleva as flores em hastes curtas. A espécie espontânea apresenta habitualmente lígulas brancas, por vezes rosadas nas extremidades, em redor de um pequeno disco amarelo.

É também esta espécie que encontramos no comércio hortícola sob a designação margarida-inglesa. Não se trata, portanto, de outra margarida: são formas cultivadas de Bellis perennis, frequentemente com capítulos maiores, semidobrados ou dobrados, em branco, rosa ou vermelho.

Bellis perennis

Como cultivar

Prefere condições frescas, solo húmido mas bem drenado e sol ou meia-sombra. É excelente para bordaduras, vasos e zonas naturalizadas. Em regiões portuguesas muito quentes, sofre mais durante o verão e tende a estar particularmente bonita durante os meses de temperaturas suaves.

Existe ainda em Portugal a margarida-do-monte, Bellis sylvestris, também autóctone, que prefere prados e clareiras em locais húmidos e algo sombrios. É uma boa demonstração de que, mesmo dentro das “pequenas margaridas”, não existe apenas uma espécie.

Leucanthemum: a margarida alta dos canteiros e prados

Quando imaginamos uma grande margarida branca, com hastes de meio metro ou mais, podemos estar perante um Leucanthemum.

Leucanthemum vulgare é uma herbácea perene, rizomatosa, que pode aproximar-se de 90 cm de altura. As suas flores têm o desenho mais clássico possível: lígulas brancas em torno de um disco amarelo. Curiosamente, estas plantas foram antigamente incluídas no género Chrysanthemum, o que ajuda a perceber por que razão os nomes populares e mesmo os antigos nomes botânicos se cruzam tantas vezes.

Nos jardins é também muito frequente Leucanthemum × superbum, a chamada margarida-de-Shasta, com numerosos cultivares de flores grandes, simples, semidobradas ou dobradas.

Como cultivar

Gostam sobretudo de sol e de solos moderadamente férteis, frescos mas com boa drenagem. A remoção das flores secas prolonga o interesse ornamental, e a divisão das touceiras de poucos em poucos anos ajuda a manter as plantas vigorosas.

Glebionis coronaria

Malmequer: um nome, muitas plantas

Com “malmequer”, a confusão é ainda maior. Não existe um género botânico chamado malmequer: é um nome comum aplicado a diferentes Asteraceae, variando conforme a região e a tradição popular.

Um excelente exemplo português é Glebionis coronaria, que a Flora-On regista precisamente como pampilho e malmequer. É uma anual mediterrânica de porte ereto, podendo aproximar-se de um metro, com folhas profundamente recortadas e capítulos amarelos ou, em algumas formas, amarelos e esbranquiçados. Foi durante muito tempo conhecida como Chrysanthemum coronarium, outro exemplo de como a história da classificação contribuiu para baralhar os nomes.

Outro parente próximo é Glebionis segetum, o pampilho-das-searas, de flores intensamente amarelas, frequente em terras cultivadas, pousios e incultos.

São plantas anuais e solares, particularmente ajustadas à paisagem mediterrânica. Glebionis coronaria prefere pleno sol e solo com boa drenagem, podendo ser usada em jardins de aspeto naturalista e prados floridos.

E onde entra a calêndula (Calendula officinalis)? A semelhança visual explica que entre facilmente na mesma conversa. Tem capítulos amarelos ou alaranjados e é uma anual de cultura muito simples. Prefere sol, tolera solos relativamente pobres desde que drenados, multiplica-se facilmente por semente e beneficia da remoção regular das flores murchas.

Calêndula

Argyranthemum: a margarida que se transforma num arbusto

Há depois aquela margarida que enche vasos, terraços e jardins com centenas de pequenas flores durante meses. É frequentemente Argyranthemum frutescens, originária das Canárias e anteriormente conhecida, entre outros nomes, como Chrysanthemum frutescens.

Ao contrário da pequena Bellis, é uma perene de base lenhosa ou subarbusto, que pode atingir cerca de 50 cm a 1 m de altura e largura. As folhas são profundamente recortadas e existem cultivares de flores brancas, amarelas ou rosadas.

Como cultivar

Pleno sol, solo moderadamente fértil e, sobretudo, boa drenagem. Tolera alguma secura e ambientes costeiros, mas é sensível a geadas intensas. Cortar regularmente as flores passadas ajuda a manter uma floração longa e a planta mais arrumada.

Margarida-africana: quando a cor muda as regras

Roxas, cor-de-rosa, brancas, amarelas ou alaranjadas, muitas vezes com o centro azul-escuro ou púrpura: as chamadas margaridas-africanas, conhecidas na jardinagem sobretudo como Osteospermum, alargaram definitivamente a paleta cromática das margaridas.

São plantas perenes ou subarbustivas em climas amenos e particularmente felizes em jardins soalheiros e mediterrânicos. Algumas classificações botânicas recentes transferiram determinadas espécies tradicionalmente cultivadas como Osteospermum para Dimorphotheca, razão pela qual o leitor poderá encontrar ambos os nomes em viveiros e bases de dados botânicas.

Precisam de muito sol e excelente drenagem. Toleram solos relativamente pobres, secura e alguma salinidade, qualidades preciosas para muitos jardins portugueses. Ademais, a remoção das flores velhas estimula a continuidade da floração; em locais sujeitos a geadas fortes necessitam de proteção.

E os crisântemos, são margaridas?

Botanicamente não devemos chamar-lhes margaridas, mas são parentes próximos e a semelhança não é coincidência. Os crisântemos pertencem igualmente às Asteraceae e muitas variedades produzem capítulos simples com a clássica forma de margarida.

Os crisântemos de jardim estão sobretudo associados a Chrysanthemum × morifolium, um complexo híbrido perene aceite atualmente por Kew. Séculos de seleção deram origem a uma extraordinária diversidade de flores: simples, em pompom, incurvadas, anémonas e muitas outras formas.

Distinguem-se ainda pela época: enquanto muitas margaridas dominam a primavera e o verão, os crisântemos são grandes protagonistas do fim do verão e do outono. Além disso, gostam de sol, solo fértil e bem drenado e regas regulares durante o crescimento. Inclusive, beliscar as extremidades dos rebentos no início do verão promove plantas mais compactas e ramificadas.

Distinguir margaridas de outras espécies

Nome habitualNome botânicoComo reconhecerCiclo/porteCondições principais
Margarida / boninaBellis perennisPequena; roseta junto ao solo; branco e amareloPerene, geralmente <10–20 cmSol/meia-sombra; solo fresco e drenado
Margarida-inglesaBellis perennis (cultivares)Flores maiores, muitas vezes dobradas; branco, rosa ou vermelhoPerene, compactaPrefere temperaturas amenas e humidade regular
Margarida-do-monteBellis sylvestrisSemelhante a B. perennis, espontâneaPerene, baixaLocais húmidos, prados e clareiras
Margarida altaLeucanthemum vulgareGrande capítulo branco e amarelo em hastes altasPerene, até cerca de 90 cmSol; solo moderadamente fértil e fresco
Margarida-de-ShastaLeucanthemum × superbumFlores grandes brancas; muitas variedadesPerene, 40–100 cmSol; solo fértil e bem drenado
Malmequer / pampilhoGlebionis coronariaAmarelo ou amarelo e creme; folhas muito recortadasAnual, até cerca de 1 mSol; solo drenado
CalêndulaCalendula officinalisAmarelo a laranja; folhas simplesAnualSol; tolera solos pobres; fácil por semente
Margarida arbustivaArgyranthemum frutescensMuitas flores sobre planta ramificada e lenhosaPerene/subarbusto, 50–100 cmSol; boa drenagem; proteger de geadas
Margarida-africanaOsteospermum/DimorphothecaCores intensas; centros frequentemente escurosPerene/subarbustoMuito sol; solo drenado; tolera secura
CrisântemoChrysanthemum × morifolium e cultivaresEnorme variedade de formas e coresPereneSol; solo fértil; floração sobretudo outonal

Qual margarida escolher para o jardim?

A resposta depende menos do nome e mais do jardim. Para relvados floridos e ambientes frescos, Bellis perennis é difícil de superar. Para um canteiro de aspeto campestre, os Leucanthemum criam manchas luminosas e elegantes. Num jardim mediterrânico, soalheiro e com pouca água, Osteospermum e Argyranthemum são escolhas particularmente interessantes. Para sementeira anual e uma imagem mais espontânea, calêndulas e malmequeres oferecem cor com muito pouco esforço. Por fim, quando o verão começa a despedir-se, entram em cena os crisântemos.

Talvez esteja precisamente aí o encanto da palavra margarida. Não descreve apenas uma planta: descreve uma forma que a natureza repetiu, reinventou e coloriu inúmeras vezes. Por detrás da aparente simplicidade daquela pequena coroa de “pétalas” esconde-se afinal uma família botânica extraordinariamente diversa. E, depois de aprendermos a olhar para as folhas, o porte e os pequenos detalhes do capítulo floral, nunca mais todas as margaridas parecem iguais.

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