4 Jardins para sonhar

Jardim 1 - Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima 2026

O Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima decorre até ao fim de outubro sob o tema inspirador Jardins de Sonho.

Assim, a edição de 2026 reúne 11 jardins efémeros, o projeto vencedor do ano anterior e várias propostas escolares que unem a Natureza e a arte. Nas linhas que se seguem, desvendamos os segredos, os conceitos e os bastidores de quatro destas criações surpreendentes.

FRAGMENTOS DE SONHO

Áustria

Autores: Egon Wiesinger (estudante), Moritz Unterholzner (estudante), Hanna Trybula (estudante), Roland Wück (consultor), Julia Wurm (consultora assistente) · BOKU University – Vienna

Este jardim convida o visitante a abrandar o ritmo, transformando a paisagem numa metáfora do próprio universo interior.

O projeto assenta em duas camadas de sonho: o mundo interior (imersão total) e o mundo exterior (observação à distância). No centro, uma superfície de água funciona como espelho entre a consciência e o subconsciente. Um cais de madeira conduz a uma jangada com o convite: “Deite-se aqui!”. Ao aceitar, o reflexo do visitante surge fragmentado por um espelho suspenso e pelas ondulações da água.

O curto prazo foi o maior obstáculo: a equipa teve apenas duas semanas para desenvolver o conceito. Ademais, criar movimento na água de forma simples também foi difícil, solucionado com a ideia de um cais flutuante inspirado nas plataformas do Danúbio. Para a execução física, o espelho circular e as bordas em aço Corten planeados inicialmente deram lugar a materiais adequados ao carácter temporário do festival, e as pedras de passagem do caminho de meditação foram substituídas por fatias de madeira.

Por fim, relativamente à vegetação, optou-se por uma paleta de jardim mediterrânico seco (Rosmarinus, Festuca, Lavandula, Quercus, Cedrus). Por outro lado, as gramíneas e as texturas suaves funcionam como um todo, suavizando os limites e estimulando a reflexão.

“Sonhar não é apenas algo passivo ou distante. Pode ser também uma forma de refletir, imaginar e reconectar-se consigo mesmo.”

LINHA DE SONHO – DREAMLINE

Roménia

Autores: IDM · Iulia-Maria Chita (estudante), Dinu Lazar (estudante), Mara Moigrădean (estudante) · University of Agronomic Sciences and Veterinary Medicine (UASVM Cluj-Napoca)

Uma paisagem onírica que usa o design para refletir sobre o sub consciente, simulando um espaço onde falta o controlo e o verdadeiro eu se revela.

O ponto de partida é a dualidade do sonho. Ou seja, o jardim divide-se em dois mundos opostos: o sonho agradável (aberto e luminoso) e o pesadelo (fechado e escuro). No centro, dentro do próprio rio artificial, reside um calmo espaço de repouso e contemplação. O esquecimento é simbolizado pelo rio Lima, cuja lenda local diz ter o poder de apagar as memórias.

Traduzir um conceito abstrato numa experiência espacial clara foi a grande meta. Porém, a tarefa mais desafiante foi trazer o simbólico rio Lima para a realidade física, o que exigiu a exploração minuciosa de diversas soluções técnicas, métodos e materiais de construção até encontrar uma abordagem viável para a execução.

As plantas funcionam como uma linguagem emocional coletiva. A zona do pesadelo integra folhagem escura e estruturas com espinhos para gerar inquietação. Em contrapartida, a zona dos sonhos usa texturas suaves e cores quentes para evocar conforto e liberdade.

Por isso, o projeto surge como um convite para os utilizadores darem um salto de fé, lembrando que os sonhos são caminhos para explorar aquilo que antes se julgava intangível.

TILLANDSIAS ONÍRICAS

Brasil – Portugal

Autores: Marcella Oliveira (arquiteta), Carlos M. Teixeira (arquiteto e paisagista), Ana Carolina Oliveira (arquiteta e bióloga), Frederico Almeida (arquiteto e artista visual) · Vazio S/A

Uma obra que dissolve a arquitetura na paisagem, configurando-se como um labirinto onde o ferro e o elemento verde coexistem de forma híbrida.

O jardim funde duas tradições paisagísticas: as sebes barrocas (aqui reinterpretadas como telas metálicas verticais, nuas ou cobertas de verde) e as tradicionais pérgulas de jardim. Logo, o resultado é um labirinto pergulado que joga com o controlo do projeto e o acaso da Natureza.

Na proposta original, a estrutura metálica seguia a tríade pilar-viga-laje da arquitetura moderna. Para simplificar a execução, as vigas não foram feitas e as paredes de malha de ferro (10×10 cm) sofreram simplificações, mantendo, contudo, a essência do conceito resistente a estas alterações.

Assim, sob a pérgula metálica pendem planos verticais de epífitas. A espécie dominante é a barba-de-velho (Tillandsia usneoides), acompanhada pela Clematis jackmanii. A escolha desta planta aérea azul-cinza baseou-se na sua textura volumosa e capacidade de criar jogos de opacidade e transparência.

Por fim, os autores definem o projeto como um folly que une a arquitetura e o paisagismo, convidando o visitante a experienciar essa hibridização através do percurso.

JARDIM TIC-TOC
UMA VIAGEM IMAGINÁRIA PELO TEMPO

Irlanda – Portugal – Reino Unido

Autores: Keith Double (arquiteto paisagista), Paul Cox (paisagista), Maria Carvalho (bióloga)

“Entre o tique e o taque reside um sonho: o espaço intemporal onde nasce a imaginação.” É sob esta premissa poética que se ergue o Jardim Tic-Toc.

Embora tenha nascido de um sonho recente, as suas sementes foram plantadas há muito tempo, cultivadas no solo fértil do encanto da infância. O projeto evoca uma época anterior aos ecrãs e ao ruído quotidiano, um tempo calmo em que as histórias ganhavam vida através das páginas dos livros e o cintilar prateado do cinema transportava as pessoas para outros mundos. Assim, neste jardim, o visitante é convidado a regressar a esse espírito de possibilidade infinita.

Tudo começa quando os visitantes atravessam um portal de madeira sobredimensionado, entrando numa paisagem lúdica e onírica onde o tempo parece pausar. No coração da composição, uma rede flutua sobre um grande relógio sazonal. Este elemento central representa o repouso, a reflexão e a própria passagem do tempo, funcionando como um convite explícito para descansar, deixar o ritmo abrandar e envolver-se no ato intemporal de sonhar.

Em resumo, o Jardim Tic-Toc configura-se, em última análise, como uma profunda meditação sobre o tempo, a memória e a evolução do nosso próprio universo imaginário.

Leia a reportagem ao Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima 2026
Festival Internacional de Jardins: Ponte de Lima sonha em jardim