
Não há campos de flores sem borboletas. Estes pequenos animais são símbolo da primavera, da beleza da Natureza e da efemeridade da vida. Desde os desenhos da infância que estes animais habitam o nosso imaginário do mundo natural. Contudo, são cada vez menos visíveis na paisagem. Porquê? O que sabemos afinal sobre borboletas? Patrícia Garcia Pereira, vice-presidente do Tagis — Centro de Conservação das Borboletas de Portugal, fala sobre estes insetos fascinantes.
Quantas espécies existem em Portugal?
As borboletas são um grande grupo de insetos pertencentes à ordem Lepidoptera, o que significa que têm escamas nas asas. Esta é uma característica única no mundo dos insetos. Têm as asas e o corpo revestidos por pequenas escamas, que estão colocadas como telhas num telhado. É a organização destas escamas que confere a muitas das espécies as cores vistosas e os padrões elaborados que associamos à beleza destes animais.
Podemos dividir os lepidópteros em borboletas e mariposas. As que voam maioritariamente ao crepúsculo e à noite são as mariposas e perfazem a grande maioria das espécies.
A ordem Lepidoptera em Portugal deve chegar às 3000 espécies. Contudo, o grupo das borboletas conta apenas com 137 espécies no continente. Existem duas borboletas endémicas dos Açores e três da Madeira.
Pode partilhar uma curiosidade sobre borboletas?
Algumas borboletas da família Lycaenidae têm associações com formigas – um dos bons exemplos da importância da comunicação química no mundo dos insetos. É na fase de lagarta que tudo se passa.
Umas lagartas têm umas glândulas que produzem substâncias açucaradas. Em troca de proteção contra predadores pelas formigas, que são bastante agressivas, vão libertado gotinhas de açúcares que as formigas apreciam. Outro exemplo em que a coevolução entre borboletas e formigas vai mais longe são as lagartas capazes de libertar um cheiro que as formigas reconhecem como um sinal de perigo. Assim, as lagartas enganam as formigas para que estas as escoltem contra predadores quando saem para se alimentar. Contam-se ainda interações mais complexas. Por exemplo, as lagartas do género Phengaris são capazes de fabricar e libertar um cheiro que é semelhante ao das larvas das formigas. As lagartas são assim levadas pelas formigas enganadas para dentro dos formigueiros onde passam o inverno. No formigueiro, as lagartas alimentam-se das reservas alimentares que as formigas acumulam. Nalguns casos, alimentam-se das próprias larvas de formiga.
Qual é a sua espécie preferida?
Vou escolher a antíopa (Nymphalis antiopa). Para mim, esta é sinal de sítios bonitos e da vinda do bom tempo. A antíopa é uma espécie que passa o inverno na forma de adulto, ou seja, de borboleta. Quando há dias de calor e céu descoberto, podemos ver esta preciosidade. Tem nas quatro asas, ao longo da margem, uma faixa esbranquiçada que faz um enorme contraste com a base das asas e que a torna inconfundível. As suas lagartas alimentam-se de freixos ou choupos, que são árvores que só existem ao pé de cursos de água. Por isso, quando vemos uma antíopa (em Portugal só no Centro e Norte), quer dizer que estamos perto dum rio fresco e bem conservado.

Porque são consideradas bioindicadores da qualidade ambiental?
A presença duma espécie num dado local depende da disponibilidade de alimento e condições que permitam a sua reprodução. No caso dos insetos que sofrem metamorfoses, temos de pensar nas diversas formas e necessidades do indivíduo ao longo da vida: ovo, lagarta, crisálida e adulto. Para as borboletas é essencial ter a planta que serve de alimento às lagartas, a chamada planta hospedeira. Depois, na fase adulta, é necessário ter sempre, ao longo do ano, plantas com néctar. Pode dizer-se que a sobrevivência das borboletas depende da diversidade florística.
Como as borboletas são mais fáceis de ver e identificar que as plantas, se contarmos o número de borboletas num determinado local, temos uma ideia do que se passa no ecossistema inteiro. É isso que quer dizer ser um grupo indicador da qualidade ambiental. Se, de um ano para o outro, deixarmos de ver a borboleta antíopa, sabemos que há um problema com os freixos, embora aparentemente pareça tudo igual.
O Tagis começou em 2019 como projeto Censos de Borboletas de Portugal, integrando a rede europeia de monitorização. Tem dados de milhares de borboletas, fornecidos por voluntários. Logo, pode-se agora ter uma ideia concreta e quantitativa das tendências das populações de borboletas e, consequentemente, da saúde dos espaços naturais. Conseguimos, finalmente, responder à pergunta: É verdade que antigamente víamos mais borboletas? E a resposta parece ser SIM…

Quais são as principais ameaças às borboletas?
A principal ameaça às borboletas é a disponibilidade de habitat para poderem completar o seu ciclo de vida. O crescimento exponencial da população humana em todo o mundo, com a urbanização associada, está a diminuir o espaço disponível no planeta para os outros animais e plantas. A este problema fundamental juntam-se más práticas das atividades humanas, como a utilização de pesticidas e herbicidas, plantações extensas de monoculturas, fogos florestais ou o aquecimento global.
Como é que agricultores podem ajudar?
Os agricultores são uma peça fundamental no equilíbrio ambiental. São eles que estão em contacto com Natureza, trabalham a terra, conhecem melhor que ninguém as características dos terrenos, o tipo de solo, a quantidade de água ou as outras espécies que lá vivem. É preciso que vejam a biodiversidade como um fator positivo, um amigo natural, e não como um problema. É possível continuar a produzir alimentos sem eliminar as comunidades biológicas. Se calhar, aproveitando a ecologia de muitas delas, é até possível poupar no trabalho e nas despesas. Por exemplo, casos paradigmáticos são a polinização e o controlo de pragas. Se, além da produção de comida, deixarmos plantas silvestres numa parte da exploração, estas vão atrair naturalmente insetos que polinizam as culturas e predadores que consomem as pragas agrícolas.
Qual o papel dos espaços verdes urbanos na salvaguarda destes animais?
A maior parte da população humana já vive em cidades. É uma área imensa e sempre em crescimento. Água potável, ar limpo, passarinhos, flores bonitas e alimentos, tudo isto tem de se passar também em espaço urbano. Inclusive, podem viver muitos animais e plantas connosco em espaços verdes, jardins, até quintais e varandas. A vida é muito resiliente! Sabemos que há borboletas que descobrem a sua planta hospedeira para depositar os ovos em varandas do 13.º andar da Av. dos Estados Unidos da América em Lisboa. Assim, se deixarmos espaços nas cidades para as plantas e animais silvestres, estes passam a funcionar como habitats.
FOTOGRAFIAS DE RUI FÉLIX E ALBANO SOARES.
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