
O santuário no Alentejo, Pangea, irá receber elefantes vindos de toda a Europa.
Kariba viu toda a sua família ser abatida quando ainda era uma cria. Sozinha, foi levada para a Bélgica onde passou 40 anos em jardins zoológicos. Quando a sua companheira de cativeiro morreu, voltou a ficar sozinha. Como ela, muitos elefantes em fim de vida ou em condições menos dignas carecem de uma nova casa e de novas famílias, mas não existia até agora um local para os realojar.
A nova reserva para elefantes de grande escala da Europa, a Pangea, irá receber estes animais no Alentejo e dar-lhes condições condignas, próximas do estado selvagem. Como já não sabem sobreviver na Natureza, precisam de um espaço que lhes permita viver livremente mas de forma segura – um santuário. Wade Million, da Pangea, explica-nos melhor este projeto.

Qual o propósito da reserva?
A Pangea é uma organização sem fins lucrativos que dinamiza o primeiro santuário de elefantes de grande escala da Europa, no Alentejo, Portugal. Estamos a restaurar a nossa reserva de 400 hectares, transformando-a num habitat próspero e biodiverso para a fauna nativa e para os elefantes residentes, dando-lhes espaço para vaguear, procurar alimento e socializar livremente, criando condições que satisfazem as suas necessidades específicas.
Muitos países da UE estão a reforçar as leis relativas à manutenção de elefantes em cativeiro, exigindo frequentemente que os jardins zoológicos e os circos encontrem novos lares para estes animais. No entanto, atualmente não existe uma alternativa viável para onde possam ser levados. Oferecemos uma solução humanitária, proporcionando um ambiente seguro e natural onde os elefantes podem ser realocados para viverem o mais próximo possível da vida selvagem.
Porque escolheram Portugal e, mais especificamente, o Alentejo?
O local foi selecionado após um estudo de viabilidade que avaliou as opções em toda a Europa com base em critérios rigorosos, incluindo o clima, a disponibilidade de terrenos, o valor ecológico, a acessibilidade e a sustentabilidade a longo prazo. A nossa reserva no Alentejo cumpriu todos estes requisitos e muito mais.
Quais são as principais características do território ocupado pela reserva?
O clima mediterrânico ameno, as paisagens ondulantes e os diversos habitats oferecem condições ideais para que os elefantes vagueiem, procurem alimento e socializem naturalmente. O local é também muito resguardado, garantindo um ambiente seguro e tranquilo para os elefantes e permitindo-nos, ao mesmo tempo, gerir o acesso com cuidado.

A introdução de elefantes não irá destabilizar os ecossistemas locais? Como farão esta gestão?
O santuário é um espaço privado e protegido. Ou seja, os elefantes estarão confinados nesta zona e não circularão livremente pela paisagem do Alentejo. Assim, não haverá um impacto em grande escala nos ecossistemas circundantes. Além disso, os elefantes eram nativos da Península Ibérica há apenas 6000 anos. O ecossistema mediterrânico e os elefantes evoluíram em conjunto ao longo de milhões de anos, pelo que será interessante realizar estudos confinados dentro do santuário para observar como os elefantes impactam o ambiente na propriedade. Ademais, o santuário segue princípios de renaturalização, transformando a antiga área de pastagem, que se encontra bastante degradada, numa paisagem saudável e biodiversa. O pastoreio de baixo impacto por elefantes e outras espécies irá fortalecer os ecossistemas e criar um ambiente o mais natural possível para os próprios elefantes, com os consequentes benefícios ambientais.
Os primeiros elefantes chegarão este ano (2026). De onde vêm? Qual a sua história?
O primeiro elefante chama-se Kariba e chegará vinda da Bélgica. A Kariba foi capturada no Zimbabué quando ainda era cria, em 1984. A sua família foi dizimada num abate por marfim, e ela foi levada. Passou muitos anos em jardins zoológicos por toda a Europa. Por fim, chegou ao Jardim Zoológico de Olmense (atual Parque Pakawi), na Bélgica, em 2012, para se juntar a outra elefante africana, a Jenny. Quando a Jenny faleceu, em 2022, a Kariba ficou sozinha. Uma vez que os elefantes são animais profundamente sociais que sofrem de isolamento, o Parque Pakawi começou a procurar um novo lar para ela. Hoje com cerca de 40 anos de idade, a Kariba será o primeiro elefante a habitar a reserva.
Está tudo pronto para a sua chegada?
Acabámos de concluir a primeira fase da construção do primeiro estábulo e habitat, o que nos permite receber os primeiros elefantes. O estábulo é uma infraestrutura essencial que oferece abrigo e um espaço para cuidados médicos e formação. O primeiro habitat tem um riacho natural que atravessa a zona, bem como um lago e uma área lamacenta. Logo, a paisagem oferece uma combinação de espaço aberto, vegetação nativa e terreno variado.
Quantos elefantes podem viver na reserva?
Conseguimos albergar até 30 elefantes depois de concluídas todas as infraestruturas. Por agora, o primeiro estábulo e habitat permitem-nos receber cinco elefantes.
Quem vai gerir este espaço e qual será a abordagem?
Teremos uma equipa permanente, mas o tamanho da equipa aumentará à medida que adquirirmos mais elefantes. Neste momento, temos um gerente do santuário e um tratador para o primeiro elefante; depois, acrescentaremos mais dois tratadores para o segundo elefante, e assim sucessivamente.
Como é que a organização planeia tornar-se financeiramente sustentável?
Como organização sem fins lucrativos, todo o financiamento da Pangea provém de donativos e subsídios através de fundações e instituições filantrópicas. Ademais, não recebemos financiamento governamental.
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