Viagens

Caminhos de vento e sal: Da duna da crismina ao forte do abano

Passando pela praia do guincho, onde o mar e o vento moldam a paisagem.

Apraia do Guincho em Cascais é muito conhecida. A nossa proposta é visitar ou revisitar a zona com outros olhos, descobrir as particularidades, os detalhes que fazem este sítio ser especial. Propomos uma caminhada fácil de 8 km, pouco desnível (113 metros) e acessível a toda a família.

De clima agreste e imprevisível, extremamente ventosa e com mar batido, é, no entanto, uma praia lindíssima, emoldurada pela serra de Sintra, cuja presença contribui para os ventos térmicos que se fazem sentir durante o verão.

Estão presentes importantes valores naturais, com diversos habitats integrados na Rede Natura 2000, inserida no Parque Natural Sintra-Cascais. A caminhada percorre espaços de elevado valor ecológico, mas também de grande vulnerabilidade, por isso existem passadiços sobre a zona dunar de modo a possibilitar a visitação sem destruir a vegetação natural, fator fundamental para a manutenção dos sistemas dunares.

Também nas arribas é recomendado permanecer nos trilhos. As plantas existentes nestes locais estão extremamente bem adaptadas às difíceis condições do meio ambiente, caso da escassez de água, dos ventos fortes e carregados de sal e do excesso de insolação, e também ao enterramento provocado pelas areias móveis.

No entanto, a forte presença humana facilmente cria perturbações nestes sistemas, o pisoteio destrói a vegetação; com o seu desaparecimento o solo fica nu e vulnerável à erosão, tornando-se mais difícil o restabelecimento de novas plantas e criando-se assim instabilidade.

O início do percurso no Núcleo de Interpretação da Duna da Crismina (rua da Areia) permite ficar a conhecer as dinâmicas dunares, assim como a fauna e flora que ali se podem encontrar.

O percurso circular da Duna da Crismina, sempre em passadiços sobrelevados, permite observar a dinâmica dunar sem a perturbar.

Vegetação dunar

Os sistemas dunares são constituídos por diferentes zonas, cada um com a sua vegetação específica e perfeitamente bem adaptada. Na duna primária ou duna móvel, o estorno (Ammophilla arenaria) e o feno das areias (Elymus fartus), duas gramíneas muitas vezes chamadas “construtoras de dunas”, com as suas raízes profundas e desenvolvimento por estolhos, estão perfeitamente adaptadas à rápida deposição de areia, tendo este fenómeno o efeito de rejuvenescimento das plantas em vez de as “sufocar”.

À medida que se vão afastando da linha de costa, as dunas vão estabilizado e aparecem outras espécies: cordeirinhos-da-praia (Otanthus maritimus), cardo-marítimo (Eryngium maritimum), narciso-das-areias (Pancratium maritimum) e arméria-marítima (Armeria welwitschii) são algumas das espécies que aparecem nas zonas semimóveis ou duna cinzenta.

Este nome deve-se ao facto de muitas destas espécies terem uma tonalidade verde-acinzentada, que não é mais do que uma das suas adaptações, neste caso ao excesso de insolação. Quando as condições o permitem, começam a aparecer espécies lenhosas, tais como a sabina-da-praia (Juniperus turbinata) e o pinheiro-de-alepo (Pinus halepensis), mas também, neste caso, as condições do meio condicionam o seu desenvolvimento, assumindo um porte baixo, prostrado em virtude dos ventos fortes.

O percurso continua em direção à praia do Guincho, onde se podem ver algumas intervenções de recuperação do sistema dunar com paliçadas. A destruição da vegetação natural pelo pisoteio cria instabilidade no sistema; a instalação destas estruturas recria artificialmente a função da vegetação, permitindo que ela volte a instalar-se.

Ao encontrar um obstáculo, a areia que é transportada pelo vento perde velocidade e deposita-se, é este o processo de formação de uma duna. No final da praia, há que subir e continuar o caminho pela falésia em direção ao Forte do Abano, ponto de retorno do percurso proposto.

Forte do Abano

O Forte do Abano, localizado entre a praia do Guincho e a praia do Abano, faz parte de um conjunto de fortalezas de defesa da costa de Cascais. Foi construído, em 1642, durante o reinado de D. João IV. Tem um formato retangular, com um pátio central; a zona virada para terra servia de alojamento e a frente marítima albergava a artilharia.

Nesta área, frequentemente fustigada por incêndios, dominam os matos rasteiros de zimbro (Juniperus sp.), esteva (Cistus sp.), tojo (Ulex sp.) e carrasco (Quercus coccifera), que formam um coberto denso sobre a “Terra Rossa”, argila vermelha originada pelas reações químicas que acontecem durante a erosão dos calcários, cuja cor forte contrasta com o verde da vegetação.

Muitas destas plantas podem e devem ser utilizadas nos jardins, quer pelas suas características de grande adaptação à escassez de água e excesso de calor quer pelas suas qualidades estéticas e elevado valor ornamental.

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