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Conheça o jardim de Glynderbourne

Um convite generoso de amigos ingleses para assistir à ópera Madama Butterfly de Puccini, no famoso Festival de Glyndebourne implicava uma situação insólita: tínhamos de ir de comboio de Londres para Lewes vestidos a rigor, já que os amigos nos iam buscar à estação para seguirmos diretamente para a ópera.

Habituados a viajar com roupa cómoda, o meu marido e eu sentimo-nos um bocado parvos, ele de smoking, eu de sedas, de trolley na mão para passar o fim de semana, na estação de Victoria entre figuras apressadas, de calções, t-shirt, flip-flops, e mochila às costas, a habitual farda de verão dos viajantes. Não havia de quê. Viam-se vários grupos de pessoas vestidas como nós que também tinham como destino o festival. Ninguém reparava em nós naquela indiferença britânica que se estende às mais insólitas situações.

O festival

O festival Glyndebourne tem um festival de ópera que se estende anualmente entre fins de maio e fins de agosto. Este evento sucede-se desde 1934, iniciativa de John Christie, dono da propriedade e grande amador do espetáculo lírico. Casado com uma soprano profissional e inspirado nos festivais de Salzburg e Bayreuth, deu início a um festival de ópera com a duração de seis semanas no qual eram representadas sobretudo obras de Mozart num anexo à casa, onde 300 espectadores podiam usufruir do espetáculo.

Aspecto do piquenique antes da ópera

Apenas interrompido durante a II Guerra, o festival beneficiou das várias alterações feitas ao teatro original e, em 1977, já tinha uma capacidade para 850 espectadores. O sucesso contínuo do festival foi tal que, em 1992, se deu início à construção de um teatro moderno, agora para 1200 pessoas, que foi inaugurado em 1994 com “As Bodas de Fìgaro”.

O jardim de paisagem inglês

Gosto muito de ópera, mas confesso que o meu entusiasmo de ir, a este Festival era sobretudo para ver os famosos jardins de Glyndebourne. Sendo uma propriedade privada, apenas estão abertos ao público duas horas antes de cada espetáculo. Isto permite aos espectadores da ópera levar uns cestos com piqueniques e petiscar pela área.

A arte de fazer canteiros “selvagens”

Os jardins

Passear pela propriedade é um prazer tão grande como o da ópera. Suponho até que este aspeto é um importante contributo para o sucesso deste festival. Vita Sackville-West, grande escritora, poeta, jornalista e jardineira (autora com o marido do belíssimo jardim de Sissinghurst), dizia de Glyndebourne:

The graciousness of civilisation here sure touches a peak where the arts of music, architecture and gardening combine… (“O encanto da civilização atinge aqui o pico onde as artes da música, arquitetura e jardinagem se combinam…”).

Eu acrescentaria que o facto de todos os espetadores estarem vestidos a rigor contribui para que todo o evento tenha um tom de sofisticação pouco comum nos espetáculos da atualidade.

A indispensável presença da água

Ignoro quem desenhou os jardins, mas o autor ou autores deram-lhe um inconfundível toque à la Repton. Um lago estrategicamente colocado, elevações de terreno sabiamente construídas ou tufos de árvores a quebrar a monotonia do prado; tudo remete para o jardim de paisagem inglês, esse contributo do séc. XVIII para o corte com o formalismo do jardim clássico francês.

Canteiro junto à casa, verdadeiro “border” à inglesa

Já em torno da casa, deparamo-nos com o arranjo típico do movimento dos Arts & Crafts e uma inspiração indisfarçável em Gertrude Jekyll. Enfim, Glyndebourne é um regalo para todos os sentidos e uma experiência a repetir. Com convite.

Fotos: Vera Nobre da Costa

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