Viagens

Curiosidades tropicais

Desta vez viajei para Santa Catarina, no Sul do Brasil. Fui a convite de uma amiga que desenvolve há cerca de 20 anos um projeto de agricultura e turismo, de base comunitária e social. Trata-se de uma rede de pequenos agricultores que acolhem pessoas nas suas casas ou em casas de turismo dentro das suas propriedades (daí o nome acolhida na colónia).

A condição para terem apoios técnicos e económicos é a de praticar uma agricultura sustentável e biológica (orgânica, como eles dizem). De facto, esta rede de produtores e agricultores orgânicos, que tem o apoio da universidade, parece funcionar muito bem. Uma excelente forma de prevenir o êxodo do campo para a cidade, mantendo as pessoas e os locais saudáveis e ligados à terra.

Mata Atlântica em Florianópolis

Cheguei de baixo de uma intensa chuvada tropical que me lavou a alma, aquele som e aquela escala! Não eram só as plantas e as árvores e as distâncias que eram enormes, era também a água, que caía dos céus e enchia rios, lagos e caminhos. Meu Deus, como eu tinha saudades da chuva.

Mais tarde, já no Rio, no museu do MAR, numa exposição fantástica sobre os índios, descobri as queimas de mão criminosa que acontecem no Brasil para desbravar a mata e plantar cana-de-açúcar para o biodiesel dos nossos automóveis ou para plantar soja ou milho transgénicos para alimentar o gado. Na segunda semana que lá estive, a Chapada dos Veadeiros, local paradisíaco, já estava a arder há uma semana sem que os média dessem grande relevo à notícia.

Garapuvu

Santa Catarina e as plantas indígenas

Passei uma semana em Santa Catarina deliciada com os nomes das plantas de sonoridade indígena. Uma delas foi o garapuvu, que é a árvore que simboliza Florianópolis. O garapuvu vai pontuando toda a verde exuberância da mata Atlântica com uma enorme e arredondada copa de flores amarelas. Conheci ainda a jabuticaba, uma árvore de pequeno porte que toda a gente tem nos quintais e fala com imenso carinho.

Eu não tive a sorte de a ver carregadinha de frutos pretos muito redondos semelhantes a cerejas. Vi-os sim sem pedúnculo, bem agarradinhos ao tronco. Conhecia-a com os frutos ainda verdes e mais tarde encontrei os frutos à venda na feira da Glória, em pleno centro do Rio de Janeiro. Comprei, provei e adorei.

Jabutica e banana

Vinte horas de autocarro mais tarde, tinha atravessado horrorizada a gigantesca selva de cimento que é São Paulo; cruzei-a de madrugada, mas o trânsito era na mesma intenso. Centros urbanos desta dimensão causam-me verdadeiros arrepios.

Rio de Janeiro e a beleza da Mata Atlântica

Cheguei ao Rio de Janeiro de manhã cedo, com toda a paisagem da Mata Atlântica viva em mim apesar de avistada apenas da janela do autocarro. Só queria ir lá para fora e senti-la de mais perto; cheirá-la, descodificá-la e contemplá-la, mexer nela com os sentidos todos.

Comecei pelo jardim botânico para me ir deslumbrando devagarinho. E eu, que era fã de Kew Gardens e do jardim Botânico de Oxford, dei comigo a questionar-me se não gostaria ainda mais deste e concluí que está ao mesmo nível mas à escala tropical.

Jaca

O Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Andei por lá a tarde inteira. Fui acompanhada pela minha amiga brasileira, que me explicou que aqueles frutos gigantescos a crescer maiores do que melões, agarradinhos ao tronco da árvore, de volta e meia caíam das alturas e se esborrachavam todos no chão. Eram as jacas (Artocarpos heteroplyllus), da família das Moráceas. Grande parte dos brasileiros não a come nem lhe dá grande importância.

Dá muito trabalho, dizem eles. Encontrei-a à venda em caixas, já preparada e pronta a comer, na feira da Glória. que acontece todos os domingos de manhã.

Os deliciosos frutos tropicais

O sabor é indescritível tal como grande parte dos frutos tropicais, notas de banana com maracujá e pinhão. Lá dentro tem umas sementes a que chamam castanha mas que são sementes maiores que as castanhas-do-pará (Bertholletia excelsa). Esta é também é aproveitada para fabricar farinha ou comer cozinhada como se fosse uma leguminosa.

Ora-pró-nobis

Nesse dia cozinhei um excelente risoto tropical! Confecionado com as sementes da jaca e um outro verde (folhas suculentas) delicioso de uma planta silvestre (um mato) com um nome muito engraçado, ora-pró-nobis (Pareskia aculeata ou P.grandiflora). A sua textura e até o sabor lembram as nossas beldroegas. Por ser tão rica em proteínas e sais minerais, chamam-lhe o “bife dos pobres”.

Pertence à família das Cactáceas e é muito usada na medicina popular. Usam-na em forma de compressas para tratar problemas de pele e varizes; internamente utilizam-na para controlar a diabetes, aliviar problemas gastrointestinais, inflamações das vias urinárias e melhorar a circulação.

Encontrei as folhas frescas à venda no mercado de rua, na banca das ervas silvestres. Eram muitas e com plantas muito diferentes das mediterrânicas. Fiquei feliz ao constatar que existiam várias dessas bancas de recoletores de plantas selvagens, saborosas e nutritivas e que vendiam ervas medicinais frescas. Tinham clientes. Eu fui uma delas.

Regressei a Portugal nutrida de tanta diversidade e de tanta novidade.

Foto: Fernanda Botelho

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