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O elogio da sombra

É o nome de um livro de Junichiro Tanizaki, com 71 páginas na edição inglesa da Vintage Classics (In Praise of Shadows), que consiste num pequeno tratado sobre a utilização da luz no interior das casas japonesas e que deveria ser leitura de cabeceira dos arquitetos ocidentais.

Entrar numa casa tradicional japonesa (felizmente, ainda há muitas) é como entrar num mundo à parte, que convida de imediato à tranquilidade e ao recolhimento. Estas casas têm características que as colocam nos antípodas das nossas ocidentais. Os materiais que as constituem são naturais, com muita madeira, muito bambu, muito adobe, muita esteira e a ausência de tudo o que contribui para um ambiente frio e artificial. Não há cimento, nem aço, nem plástico, nem ferro. Não há azulejos, nem tijoleiras, nem ladrilhos. Até as banheiras são de madeira.

Rokasensuiso , a casa da família do pintor Yamamoto Syunkyo, no lago Biwa

A importância da luz e da sombra

A luz é coada através de painéis deslizantes de papel de arroz. O ambiente é quente, acolhedor, confortável. Há poucos móveis, ou mesmo quase nenhuns, não há objetos decorativos, não há fotografias nem bibelots, nem quadros nas paredes. O único elemento decorativo, que varia conforme as estações do ano, é uma pintura em rolo, um ikebana ou uma peça de cerâmica, que se encontra numa alcova chamada tokonoma.

Sala da casa da Yoshida San, em Kyoto

E não há camas. Dorme-se em futons pousados no chão de tatami (esteiras) que são enrolados e guardados em armários logo pela manhã. Os utensílios de apoio ao dia a dia encontram-se todos sabiamente ocultados atrás de armários de parede com portas de correr. Entra-se descalço e vive-se ao nível do chão. Come-se, lê-se, conversa-se e medita-se sentado sobre os calcanhares em almofadas colocadas no chão, tendo como única concessão de mobiliário uma pequena mesa baixa de apoio. As paredes são escassas e os compartimentos da casa estão apenas divididos por simples painéis deslizantes em papel de arroz. Se há mais convidados, abrem-se as portas, ou fecham-se, caso haja necessidade de privacidade.

Sala da casa da família Kumakura, em Kyoto

O espaço não é estático e varia conforme as atividades da casa. Uma vez que não há móveis nem objetos, a incidência da luz nos interiores adquire uma enorme importância. Ao longo do dia, a luz do exterior é coada através dos painéis de papel (shoji) e projeta sombras diferentes consoante a hora e as condições atmosféricas. Nalguns palácios e templos, as fusuma ou painéis deslizantes exibem pinturas de fundo dourado com o intuito de melhor refletir a luz num interior sombrio.

As cores fortes e claras dos quimonos destacam-se de forma especial nestes ambientes despojados e pouco iluminados artificialmente. Mesmo a luz elétrica é habitualmente abafada com um material do tipo do papel de arroz.

Perspetiva do jardim da casa da família Isome, no lago Biwa

A abertura da casa para o exterior

Apesar dos interiores sombrios, as casas tradicionais do Japão não são asfixiantes nem deprimentes. Tal acontece graças à continuidade e integração total entre edificado e a sua envolvente exterior. De quase todos os seus pontos interiores se pode avistar um jardim, que é sabiamente pensado para proporcionar diferentes cenários consoante o local do interior em que nos encontramos.

A casa abre-se para o exterior, mas de uma forma subtil, em que, mais do que “gozar as vistas”, se espreita os jardins, que são, regra geral, pequenos. Os jardins das casas privadas são menos para passear e mais para contemplar de varandas ou do interior. O equilíbrio estético e a ligação à natureza é que são mandatários.

Interior da casa Rakasensuiso, no lago Biwa

Para nós, ocidentais, é um choque cultural em termos do nosso habitat doméstico. Apesar disso depressa se descobrem os encantos daquela forma de estar em casa. Para o turista normal que não tenha amigos locais e acesso a casas particulares, a melhor maneira de experimentar estes interiores é ficar umas noites num ryokan ou pousada tradicional japonesa, onde a arquitetura obedece a todos os princípios atrás enunciados.

Ocorre-me pensar que no mundo de hoje, em que as cidades japonesas brilham pela espetacularidade dos seus néones, tão queridos das marcas e dos estabelecimentos comerciais, depois de um horário de trabalho certamente mais intenso que o nosso, não admira que uma casa nestes moldes seja um porto de abrigo para refazer o corpo e a mente.

Fotos: Vera Nobre da Costa

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