Viagens

Itinerário pela paisagem alentejana

Dunas da praia do Pego, no Carvalhal, Comporta

Desta vez, tratou-se de um itinerário de três dias pela paisagem alentejana. Esta, embora por mim já visitada, revelou-se bem diferente, mais moderna, limpa, mas autêntica, ainda não estragada pelo turismo crescente.

Saímos de Lisboa atravessando o Tejo para Tróia, em direção à Comporta. Ausente a pressa de chegar, foi possível atravessar tranquilamente o rio, apreciando as magníficas vistas de Lisboa, que, por vezes, de tão familiares se tornam invisíveis.

Porto de pesca palafítico, na Carrasqueira

Comporta

Ancorados no moderníssimo mas muito bem implantado Sublime Comporta, começámos por um obrigatório mergulho na praia do Pego. Depois disso seguiu-se um esplêndido almoço de arroz de tinta de chocos no restaurante Sal. A pureza da praia, limpa e desafogada, fez-nos esquecer a rotina diária, o barulho das várias cidades, a confusão urbana.

Olhar para aquela paisagem de dunas sem construção e com a flora autóctone a espreitar entre as areias é um bálsamo para a alma.

O areal do estuário do Sado

Passámos o fim da tarde a explorar o pôr do sol no porto de pesca palafítico da Carrasqueira. Este sítio, já meu conhecido, é um dos meus locais favoritos da costa alentejana.

Trata-se de um pequeno porto de pesca, construído sobre toscas estacas de madeira pelos pescadores locais em meados do século passado. Situado no estuário do Sado, permite que se avance pelo pontão fora, admirando as aves que o sobrevoam, a criatividade dos pescadores locais na decoração dos seus casinhotos, o sol a deitar-se no horizonte. Jantar sublime no propriamente dito e uma noite bem dormida fecharam o primeiro dia da viagem.

Vale do Gaio, Torrão

Vale do Gaio

Manhã cedo, um mergulho na praia deserta, uma paragem na incrível mercearia Gomes, que tudo tem. De seguida partimos rumo ao almoço preparado especialmente para nós pelo Vasco Gallego (proprietário do restaurante XL, em Lisboa) no seu novo poiso no Vale do Gaio; uma pequena pousada debruçada sobre a barragem Trigo de Morais. A qualidade do almoço rivalizou com a esplêndida vista sobre a albufeira da barragem e deixou-nos mais ou menos incapacitados de ação.

L’and Vineyards, perto de Montemor-o-Novo

Montemor-o-Novo

O rumo seguinte foi o famoso L’and Vineyards, perto de Montemor-o-Novo. Um resort de traços contemporâneos, mas completamente adequado à paisagem alentejana, graças ao entorno paisagístico da autoria de João Nunes. Não há jardim, há vinhas, como compete ao Alentejo. No entanto, o calor é amenizado por uma piscina de onde se avista uma pequena albufeira.

O terceiro dia começou com uma ideia que me ocorreu já no Alentejo. Lembrei-me ir visitar um local completamente surpreendente e muito impressionante: o Cromeleque dos Almendres. Como a ideia era ir a Monsaraz, aquela pequena vila impossível de evitar mostrar a estrangeiros, lembrei-me que o cromeleque ficava no caminho.

Alcachofra-de-são-joão (Cynara humilis)

Cromeleque dos Almendres

Na estrada entre Montemor-o-Novo e Monsaraz, vira-se à direita em direção a Nossa Senhora de Guadalupe e, com alguma paciência para percorrer um trilho de terra a 20 quilómetros à hora, chega-se ao local. Talvez porque é fora de mão e pouco conhecido, estava apenas meia dúzia de visitantes estrangeiros.

O Cromeleque dos Almendres, o mais importante da Península Ibérica, data do Neolítico Antigo (VI milénio a.C.), tendo sofrido várias alterações posteriores. Atualmente apresenta a estrutura que teria no Neolítico Final (III milénio a.C.).

Constituído por 95 monólitos dispostos em duas estruturas, uma ovoide, outra quase circular; destinava-se ao culto dos astros e da natureza. A composição foi apenas descoberta em 1964 e os monólitos que se encontravam caídos foram colocados nas suas posições originais graças a recentes investigações arqueológicas. Embora as pedras sejam de reduzida dimensão (as maiores têm apenas três metros), tem sobre Stonehenge a vantagem de se abrir sobre a paisagem sem interferências modernas de casario urbano e autoestradas.

Cenoura-brava (Daucus carota)

Monsaraz

O final da viagem foi uma visita a Monsaraz, que nunca dececiona. Esta passagem foi rematada com um almoço no Sabores de Monsaraz, um ponto alto gastronómico de paladares alentejanos, preparados sob a batuta sabedora e bem-disposta da D.a Isabel Lucena. Regressámos a Lisboa deslizando pela Ponte Vasco da Gama: nós os autóctones orgulhosos da nossa terra; eles, os amigos estrangeiros, estupefactos com tudo o que viram e com vontade de voltar.

Fotos: Vera Nobre da Costa

Gostou deste artigo? Siga-nos no Facebook, no Instagram e no Pinterest e subscreva o nosso canal no Youtube.

Poderá Também Gostar