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High Line: o genius locci da arquitetura paisagista em Nova Iorque

Fui a Nova Iorque uma semana, tendo reservado na agenda umas horas para percorrer e fotografar o famoso High Line, um original espaço verde de Nova Iorque, cujo segundo troço tinha sido inaugurado em 2011.

A história

Pelos anos 30 do século XX, o tráfego dos comboios de carga que levavam até Nova Iorque o leite, a carne e outros produtos comestíveis e não comestíveis necessários à atividade dos armazéns e fábricas da cidade, tornou-se de tal forma intenso que passou a ser um risco para os transeuntes. Os acidentes aumentaram exponencialmente e a 10.ª Avenida passou a ser designada por Death Avenue. Tomaram-se medidas extremas, como a de ir um guarda a cavalo à frente dos vagões com uma bandeira para alertar os peões à passagem dos comboios.

Carris com a plantação de herbáceas

Elevated track

Em 1934 encontrou-se uma nova solução. Para obviar esta situação e perante o aumento de população e de atividade da cidade, foi construída uma linha de caminho de ferro elevada a uns metros do chão, que passava pelo West Side sem perturbar o tráfego de rua. O então simplesmente designado por elevated track (viaduto) foi considerado “um dos grandes progressos da história de Nova Iorque”. Funcionou até 1960, altura do aparecimento de novos e mais modernos acessos por rodovias. A sua estrutura tornou-se obsoleta e levou à desativação de parte dela.

Em 1980, passam os últimos três furgões pelos carris do High Line. Após isso a linha foi completamente abandonada.

Em 1991, uma parte da estrutura é demolida para dar lugar aos inevitáveis e previsíveis prédios de apartamentos. No ano de 1999, sai um artigo existente, está disposta a aceitar propostas de reutilização para a linha.

Manutenção com Frank Gehry em fundo

Associação Friends of the High Line

É aqui que a história se torna num bom exemplo do que pode ser uma intervenção eficaz por parte de uma comunidade. Um movimento encabeçado por dois moradores, Joshua David e Robert Hammond, funda a associação não lucrativa Friends of the High Line, que, até hoje, é responsável por esta área. Esta tem por objetivo a conservação, manutenção e gestão deste extraordinário parque público; o espírito de proteger a sua estrutura original e a sua história (provavelmente inspirados na Promenade Plantée, em Paris).

A construição do parque público

À boa maneira americana, recolheram-se milhões em fundos (165 milhões de USD…) e entregou-se o plano de conversão da linha de caminho de ferro em parque público: à James Corner Fields Operations (arquitetura paisagista); à Diller Scofi dio+Renfro (um estúdio de design que integra arquitetura e artes visuais) e à genial plantação ao holandês Piet Oudolf.

Pormenor do pavimento original em lajetas e gramíneas

Passeando pelo High Line

Resolvi fazer o percurso entrando pela rua 34 e saindo na Gansevoort, junto ao novo Whitney Museum. É um passeio de cerca de 2,3 quilómetros inesquecível que aconselho a todos. Brilha pela sua originalidade e pela perfeita adequação ao lugar em que se encontra.

A cidade é vista de um ponto de vista elevado, diferente do do nível da rua. Parece que estamos taco a taco com os vários edifícios, alguns deles com mais de 20 andares, para dentro dos quais apetece espreitar.

Trilhamos o caminho ora de cabeça levantada, ora de cabeça baixa.  Durante o percurso não pude deixar de admirar os edifícios e de reparar nos carris da antiga linha de caminho de ferro que espreitam por entre as herbáceas, bem como de observar as vistas do rio Hudson, que não se perdem no trajeto.

O High Line está pensado (e bem pensado) como local de descanso, de recolhimento ou de passeio. Há originalíssimos e cómodos bancos para o visitante se deitar ou sentar a admirar as vistas. Por lá se lê, se namora, se dorme, se brinca, se conversa, ou, simplesmente, se pasma. Todos os materiais são de excelente qualidade e vê-se que ninguém poupou na fatura.

O mapa de plantação, a cargo de Piet Oudolf, é simplesmente genial. Sem folhas secas nem lixo à vista. É como se estivéssemos rodeados de vegetação endémica espontânea, só que muito bem cuidada. Simultaneamente selvagem e altamente sofisticado. A ideia de sustentabilidade e resistência levou à escolha de espécies nativas perenes, com grande robustez. Neste espaço abundam herbáceas e maciços de arbustos e árvores, quebrando um pouco a linearidade do percurso.

Espaço de leitura

Um verdadeiro genius locci

O último troço do High Line foi aberto ao público em 2015. Por ano o parque recebe cerca de cinco milhões de visitantes. Este sucesso não é estranho devido ao facto da sua localização ser ao longo do Meatpacking District, a atual sede das galerias de arte mais trendy.

Para os amantes de arquitetura, o High Line é um local de onde se podem observar as estruturas da autoria de Frank Gehry, Jean Nouvel e Neil Denari.

O High Line proporciona um magnífico passeio dentro da cidade. É um dos melhores exemplos que conheço de respeito pelo genius locci (espírito do lugar), um dos princípios mais importantes da arquitetura paisagista.

Informações úteis:

Entrada gratuita. Pode-se contribuir dando um donativo ou comprando uma das peças de merchandising High Line, à venda no local.

Horário: 1 out a 30 nov (7h -22h); 1 dez a 31 mar (7h-19h); 1 abr a 31 mai (7h -22h); 1 jun a 30 set (7h -23h).

Localização: Da Rua 34 à Gansevoort, entre a 10ª e a 12ª Avenidas

Fotos: Vera Nobre da Costa

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