Um pátio numa casa de esquina

Um espaço preparado para ser vivido com tanto prazer como o interior da casa, inabitual em tantas casas portuguesas, que, por isso, deveria ser um exemplo a seguir.

A porta de entrada ao rés do chão abre-nos para um longo corredor que atravessa a moradia dos anos 30, com sabor preservado. Não basta o encantamento de expressão regionalista de art déco do seu interior para sentir como foi valorizada pela família que recentemente decidiu mudar o rumo do seu destino. É uma história bem contada, com beleza nas palavras usadas para descrever a vontade de viver, confiar no futuro e desafiá-lo quando pegaram nas suas vidas, e pai, mãe e filho juntos criaram um lugar onde conceberam vibrar viver. A leitura está explicada nas paredes coloridas de telas, nas peças distribuídas por todo o interior com animosidade, expostas com rigor e preceito para serem apreciadas, não meramente mostradas. Distingui a valorização da cor, bem encarada no difícil exercício que me lembrou as instalações de arte, as montagens cénicas de palco ou montras de assinatura, e nesse raro pormenor que vi antes de ser atraído para o pátio reconheci uma leitura eufórica de estilo trendy no interior até chegar ao exterior.

O interior

O compromisso com a história da casa é feito com elegância e respeito pela sua alma, claramente assente no contacto que a proprietária fez com o mundo ao longo de décadas de viagens, atenta à cultura dos povos que contactou. Com eles aprendeu, com eles pôs em prática na sua casa. Se o propósito deste artigo está no pátio, a emoção vive-se na transformação do eixo da cozinha num tríptico próprio de mestre, bem articulado com um espaço de refeições ajardinado, imediatamente antes de nos debruçarmos sobre a imensa vitrina que se abre ao pátio. Cozinha de suspiro, conta detalhes que não colidem com a sua função prática, tem olhos postos no pequeno jardim exterior. O ambiente é sedutor e íntimo com os passos caminhados até ao pátio. No espaço de refeições, há novamente lugar para a evasão natural e a vontade de acompanhar a vida da família com plantas. Uma estante neutra está carregada de vasos plantados, outros floridos, todos com o papel principal em que as peças ornamentais complementam com graciosidade e humor, a coleção de plantas. Aponto o bom gosto na conjugação cromática dos vasos com as espécies ornamentais que é impossível não perceber. A soberba cerâmica artística das Caldas da Rainha é luminosamente aplicada com os padrões e reflexos dos cultivares de Begonia sp. A simples estante transforma-se toda numa tela preenchida com as texturas e estampados vegetais, geometria das espécies de suculentas e dinâmica da sua aparência. Não é exigido espaço para a criatividade da jardinagem interior senão imaginação e carisma: o simbolismo popular português do galo de Barcelos é explorado com humor na composição com a coleção de plantas.

O exterior

Mas são os enormes vãos fenestrados sobre o pátio que valorizam a linguagem do interior para o exterior, abrindo uma passagem visual que resulta pelo cuidado e dedicação que a proprietária deu ao seu pequeno jardim lá fora. Pequeno mas cénico, com uso exclusivo de vasos e potes que exortam o design botânico com a escolha muito criteriosa da aparência estilística de cada exemplar. O impacto da floração do Cymbidium eburneum cativa a atenção no modo suspenso e isolado em que foi colocado, cria drama e sublinha exotismo ao ambiente levemente minimalista. Não há pretensão em colecionar, mas criar estilo com o movimento da silhueta das plantas contrapostas aos materiais edificados. No exterior, o discreto desenho retilíneo e cores subtis dos revestimentos cerâmicos do chão e paredes, o rigor dos metais da guarda e gradeamentos de madeira são contraditos com a ligeireza das formas curvilíneas da Strelizia nicolai, da Pachira aquatica, da Yucca gigantea ou da Ficus benjamina. Não importa a ausência do valor excecional dos exemplares senão a sua posição na composição do espaço. Este é o exemplo de êxito quando se desenha um pequeno jardim em vasos aflorando as qualidades de design que as plantas nos proporcionam. A proprietária tem motivação pelo bem-estar estético e visual do espaço onde habita e não desprivilegia nenhum ambiente. O interior da casa ganha com as perspetivas subtraídas do pátio, e são essas a mais-valia da pequena área exterior. Trazê-lo visualmente para dentro de casa, vivendo-o simultaneamente a partir de dentro numa única linguagem. Esta é de sua autoria, assumidamente expressando a vontade de praticar uma simples jardinagem de estilo. O seu pequeno jardim é um bonito comentário ao prazer de jardinar sem reunir necessariamente profundo conhecimento sobre plantas. A junção de peças que apoiam a disposição das plantas, como o escadote recuperado de uma antiga casa de campo de um familiar, vem dar a nota orgânica ao ambiente enclausurado que assim suaviza. Os materiais naturais com profunda identidade portuguesa como a cortiça são outro apontamento que tão harmoniosamente cumpre o preceito pretendido de design botânico e muito apreciado pela Tillandsia ionantha. Descrevo neste pátio a capacidade de apresentar de modo particularmente simples e agradável como remate da casa, fazendo a sua valência e sem o subestimar, preparando-o para ser vivido com tanto prazer como o interior da casa. Estou perante um exemplo inabitual em tantas casas portuguesas que me encheu de satisfação poder elogiar.

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