Plantas

Camélia: o segredo da sua cor

C. japonica, Augusto Leal de Gouveia Pinto: flores da mesma árvore, com diferentes colorações: normal, vermelha, rosada clara e branca

Saiba o porquê da variação das cores das flores das camélias, muitas vezes na mesma planta.

As camélias pertencem à família Theaceae (das Teáceas ou das Cameliáceas) e, dentro desta, ao género Camellia.

O género Camellia

Compreende cerca de trezentas espécies, de que são mais representativas a planta do chá ou chazeiro (Camellia sinensis) e as espécies ornamentais (Camellia japonica, Camellia sasanqua e Camellia reticulata e, em menor grau de interesse, a Camellia saluenensis; a Camellia chrysantha e a Camellia oleifera). Mas também outras espécies utilizadas na obtenção de um número cada vez maior de híbridos interespecíficos.

A Camellia japonica, (tsubaki, em japonês, e que significa árvore de folhas luzidias) e a Camellia sasanqua (sazanka, em japonês) deram origem à maior parte das variedades ornamentais que existem atualmente.

O género Camellia caracteriza-se por incluir espécies arbustivas ou arbóreas de porte médio, de folhas alternas; coriáceas, escuras, lustrosas, com pecíolos curtos, flores com cálice e corola pentâmeros, espiralados, sendo as pétalas um pouco coalescentes na base.

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C. japonica, Augusto Leal de Gouveia Pinto: coloração normal, mas a flor da esquerda apresenta uma lista vermelha

As cores das flores das camélias

As flores, de acordo com a variedade cultivada, apresentam diversas cores ou tonalidades: brancas, vermelhas, rosadas, matizadas, violáceas ou amarelas, variando a sua dimensão entre menos de 5 cm até mais de 12,5 cm de diâmetro. Por vezes, uma mesma cameleira pode exibir flores com tonalidades completamente diferentes, por exemplo, brancas e outras vermelhas ou rosadas, e ainda listadas, estriadas, salpicadas, rajadas, marmoreadas ou matizadas.

O porquê da variação das flores das camélias

Duas razões básicas justificam o fenómeno de variação nas flores das camélias: variação genética e infeção por vírus. A variação genética está inscrita nos próprios genes da planta e é traduzida pelo aparecimento de manchas, estrias, picotado ou mudança da cor nas pétalas.

A infeção por vírus ocasiona, além disso, transtornos no vigor da planta; mas também é verdade que o matizado resultante tem proporcionado variedades muito premiadas, como é o caso da camélia japónica “Ville de Nantes”.

Existem também novas camélias que foram originadas por mutações espontâneas, com influência na cor ou na forma, mediante mecanismos muito difíceis de explicar e que se relacionam com a própria evolução da espécie. Inclusivamente, na própria planta podem coexistir ramos com flores de formas e cores distintas.

Estes ramos mutantes são designados por “sports” e é possível obter (por vezes) a partir deles, por via vegetativa (enxertia), uma nova variedade cultivada com características perfeitamente fixadas ao longo dos anos.

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Gouveia Pinto: flor com uma única lista C. japonica, Augusto Leal de Gouveia Pinto: flor parcialmente vermelha

Variação genética

Dentro do género Camellia, existem cerca de três centenas de espécies, as quais têm vindo a ser submetidas a contínuas hibridações, naturais ou induzidas. No género Camellia, o número de cromossomas próprios é de 30, sendo 15 o número básico de cromossomas (n) nos gâmetas ou células reprodutoras.

Estas células reprodutoras (células sexuais masculinas e femininas), que apresentam apenas um conjunto de cromossomas (n), são designadas por haploides. As células reprodutoras, ou gâmetas, têm como origem células somáticas (2n) que foram submetidas ao processo denominado gametogénese.

Na gametogénese, dá-se normalmente um importante processo de divisão celular, denominado meiose ou redução cromossómica (meiose I e meiose II), através do qual uma célula somática (2n), ao ser transformada numa célula sexual, origina quatro células haploides (n), reduzindo a metade o número de cromossomas próprios de uma espécie, daí que mediante a sua união com uma outra célula sexual vai surgir um novo ser (2n).

No reino vegetal, este mecanismo nem sempre funciona desta maneira: por vezes, não se dá a citada redução cromossómica (gâmetas não reduzidos), surgindo então os indivíduos poliploides (Xn), os quais possuem mais do que dois conjuntos de cromossomas (genomas), o que constitui um novo mecanismo denominado poliploidia.

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A poliploidia, ou seja, a existência de mais de dois genomas no mesmo núcleo, de ocorrência comum nas plantas, é considerada um dos processos evolutivos mais marcantes na origem e evolução das plantas silvestres e cultivadas.

Cerca de 40 por cento das espécies vegetais cultivadas são poliploides, tendo surgido através de gâmetas não reduzidos ou pelo cruzamento de indivíduos de espécies diferentes. Uma vez que a maioria das espécies é auto-incompatível, a Natureza recorre à polinização cruzada, daí que ocorram espontaneamente formas híbridas triploides, tetraploides, pentaploides, hexaploides, heptaploides e octaploides.

As formas mais comuns em camélias são as diploides e triploides. O conhecimento destes mecanismos em plantas cultivadas tem levado investigadores a induzirem a poliploidia no género Camellia com o recurso a produtos químicos específicos, como a colchicina. Já que geralmente as espécies poliploides são maiores e mais produtivas.

Estes aspetos são relevantes e as técnicas têm sido utilizadas com sucesso, por exemplo, na obtenção de plantas de chá com folhas de maiores dimensões (para se aumentarem os níveis de produção por hectare), nas camélias ornamentais (aumento do tamanho da flor) e nas camélias oleíferas (acréscimo na produção de óleo).

 

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