Viagens

Itinerário na Madeira

O lindíssimo parterre com vista para o Funchal do Jardim Botânico da Madeira

 

Nos últimos anos tenho ido várias vezes à Madeira e confesso que passei a ser fã da ilha que durante muitos tempo preteri como local de poiso a favor dos Açores, menos turístico, mais tranquilo, menos visualmente poluído, enfim, mais puro.

 

Numa visita à Madeira em tempos de semipandemia, encontrei uma ilha diferente da que conhecia. Embora o Funchal continue a ser uma frente de cimento com os hotéis em primeira linha e casario geralmente feioso, passear pela ilha oferece inúmeros pontos de interesse que até aqui desconhecia.

Nos anos 70 já me tinha aventurado pelos famosos picos do Arieiro e do Ruivo, nessa altura inacessíveis de carro e sem comodidades, que constituíam uma caminhada de quase oito horas (ir e vir), por caminhos difíceis, com uma mochila às costas. Fazia-se um piquenique no final do percurso e apreciava-se a grandiosidade da paisagem se o nevoeiro o permitisse. Havia também as levadas que se faziam sem ter de dar encontrões em multidões de turistas.

Descobri agora os prazeres de uma Madeira mais sofisticada, com excelentes restaurantes, um centro histórico impecável, uma sé lindíssima totalmente restaurada, um novíssimo Museu de Arte Contemporânea/Centro de Artes na Casa das Mudas e, claro, os jardins.

 

 

Jardim Botânico da Madeira – Eng.º Rui Vieira

Foi inaugurado em 1960, após a aquisição pelo Governo madeirense da Quinta do Bom Sucesso, e o seu primeiro diretor e grande impulsionador do projeto foi o eng.º Rui Vieira, que agora dá o nome ao jardim. Passear por ele é contactar com a riquíssima flora da ilha de uma forma organizada, sistematizada e devidamente identificada. São mais de 2500 plantas, das quais cerca de 200 espécies indígenas.

As condições climáticas da Madeira e os seus 80 hectares de área tornam-no o palco ideal para o estudo da biodiversidade vegetal do arquipélago, em especial a flora macaronésia, atraindo cerca de 345 mil visitantes por ano.

Destaco o maravilhoso terraço em parterre florido e impecavelmente mantido, com vista para o mar, que é o ex-líbris do jardim.

Embora localizado no alto da ilha, o acesso é muito facilitado tomando o teleférico a partir do centro do Funchal.

 

Jardim do Palheiro

É um jardim que floresce todo o ano dada a diversidade de plantio que o clima permite e que, por isso, é muito mais do que um jardim tropical. Plantas exóticas estão lado a lado com outras que nos são mais familiares. Tanto encontramos coníferas, magnólias e eucaliptos como roseiras, cameleiras, lírios e Delphinium.

Fundado pelo conde Carvalhal em 1801, a propriedade era sobretudo uma estância de caça, embora o proprietário tenha plantado cerca de 200 plátanos que rodeavam a entrada das carruagens e árvores exóticas importadas de todo o mundo. A partir de 1885, a Quinta do Palheiro foi comprada por John Blandy, cuja família continuou o desenvolvimento do jardim após 1900, tendo introduzido variadíssimas plantas, incluindo uma coleção de próteas da África do Sul. A partir do século XX, o jardim adquire o inconfundível tom “inglês” de alguma desordem com as suas veredas, relvados, sunken garden e roseiral, laguinhos e fontes, que Christina Blandy justifica dizendo que “é impossível ser-se excessivamente formal neste clima propício a um florescimento tão rápido”.

A família Blandy instalou também na propriedade o Hotel Casa Velha do Palheiro e o Palheiro Golf, que, nalguns dos seus 18 buracos, desafia a imaginação do golfista porque do tee não se avista o green onde a bola deve aterrar dado o declive do terreno. Eu sei porque já lá joguei com maus resultados.

O Palheiro é um jardim com uma atmosfera diferente do resto da ilha, mas que proporciona um agradável passeio.

 

Monte Palace

Fui lá pela primeira vez em novembro, confesso que sempre resisti a uma visita, já calculando que me iria defrontar com as fantasias asiáticas do atual proprietário. No entanto, sabia que tinha uma grande coleção de cicas e uma floresta de Laurissilva e resolvi-me ao passeio.

Comprada no século XVIII pelo cônsul inglês Charles Murray, a propriedade era uma quinta de prazer e até assim se denominava então. Em finais do século XIX é comprada por Alfredo Guilherme Rodrigues, que constrói uma residência com características de palácio que é transformada num hotel, o Monte Palace Hotel. Com a morte do proprietário, a quinta e o hotel entram em decadência e assim ficam até que é adquirida pelo comendador Berardo em 1987.

Joe Berardo fez na propriedade o que fez noutros locais: recuperou, reabilitou mas transformando-a à sua maneira, fazendo do espaço um jardim tropical com plantas exóticas importadas sem esquecer as indígenas da Madeira como a Laurissilva e transformando o conjunto no Monte Palace Madeira.

O jardim é construído todo em declive, o que permite magníficas vistas sobre o Funchal, tem bons caminhos e é dividido em várias áreas. O pior é que está polvilhado daqueles elementos tão ao gosto do comendador que já estão presentes na Quinta dos Loridos, agora denominada Bacalhoa Buddha Éden.

Assim, entre a vegetação do jardim, encontramos um pouco de tudo: pagodes, lagos com peixes koi, budas, lanternas e torii japoneses, pontes e portões chineses pintados de encarnado, soldados de terracota pintados, etc. Os elementos orientais coabitam com 166 azulejos do século XVI narrando “As Aventuras dos Portuguese no Japão”, peças de azulejaria e escultura contemporânea e até janelas manuelinas. Há mais, mas falta-me espaço.

Cheguei ao jardim pelo teleférico e fui descendo até ao lago principal percorrendo todos os caminhos de mapa na mão. Infelizmente, para chegar à floresta de Laurissilva tive de subir todo o muito íngreme trajeto até à saída, coisa que é permitida apenas a quem tenha bom coração e boas pernas. Depois, percebi porque é que havia buggys a transportar pessoas, mas já foi tarde demais.

Enfim, voltando à ilha, para os amantes de jardins, há que não falhar uma visita ao Mercado dos Lavradores (à sexta-feira), onde se encontra uma incrível variedade de frutas locais e se pode comprar amarílis, estrelícias, próteas, bananeiras, Lilium, em bolbo ou em saquinhos de plástico com o torrão, mesmo a pedirem para os trazermos para casa. O que fiz.

 

Leia ainda “Jardins de Portugal: Rota da Madeira”

 

Gostou deste artigo? Então leia a nossa Revista, subscreva o canal da Jardins no Youtube, e siga-nos no Facebook, Instagram e Pinterest.


 

Poderá Também Gostar