Jardim

Plantas, mitos e magia

Conheça muitas das lendas, simbologias e crenças associadas a algumas das plantas tão usadas em Portugal.

Alecrim

Alecrim

Alecrim

O alecrim foi trazido para a Europa pelos primeiros monges cristãos, tornando-se muito popular nos jardins dos conventos, onde era já utilizado para fins medicinais e também colocado nos armários para afastar traças, além de queimado nos quartos para purificar o ambiente onde tinham dormido pessoas doentes.

Nas lendas cristãs, representava a Virgem Maria, a quem é suposto ter protegido durante a fuga para o Egito.

Durante a festa dos pastores, que se celebrava em abril e comemorava a fundação de Roma, era hábito queimar-se alecrim para perfumar os fontanários, bosques e rebanhos sagrados.

Na Europa, era símbolo de devoção eterna e é usado ainda hoje na lapela do noivo e na grinalda da noiva.

Sabugueiro

Na mitologia nórdica, está associada à deusa mãe, uma deusa da benevolência, da luz, da vida e da sabedoria.

A sua madeira é muito oca e quebradiça e portanto fácil de talhar, tendo sido muito usada no fabrico de caixões e cruzes para decorar sepulturas, mas jamais no fabrico de berços.

Na Europa, é comum encontrá-lo perto dos povoados, pois antigamente acreditava-se que o sabugueiro atraia os espíritos do bem e eram por isso aí plantadas. Diz-se que, nas noites quentes de verão, estas eram as árvores favoritas das fadas. Será talvez devido à grande luminosidade das suas flores.

Os bolinhos fritos confecionados com as flores frescas do sabugueiro e mergulhados num polme de farinha, leite e ovo são, nalguns países, uma tradição do dia de São João e acredita-se mesmo que evitarão a discórdia entre marido e mulher se comidos nesse dia.

Sabugueiro

Sabugueiro

Hipericão

Desde a Antiguidade que o hipericão é considerado uma planta protetora de vários males físicos, psicológicos e mágicos, muito associado a rituais de maus-olhados, fertilidade, feitiços e magia.

Na Europa medieval, por altura do São João, acendiam-se grandes fogueiras à volta das quais se dançava com grinaldas de hipericão na cabeça, grinaldas essas que eram depois lançadas para cima dos telhados das casas para assegurar colheitas abundantes e proteger o gado contra feitiços e mau-olhado.

Os assírios, durante as suas cerimónias penduravam hipericão por cima das portas para se protegerem contra as tempestades e contra as almas do outro mundo.

Os guerreiros medievais só eram admitidos nos torneios depois de jurarem que não traziam consigo nenhum pé de hipericão, com o qual ficariam em vantagem desleal. Não é por acaso que o hipericão é tradicionalmente colhido por alturas do solstício de verão (21 de junho) ou do São João (24 de junho), quando as forças do dia e da noite se equilibram. É nessa altura também que o hipericão tem os seus princípios curativos mais ativos. As suas flores amarelas e brilhantes representam os raios de sol e estão, portanto, muito associadas às colheitas, ao bom tempo e à luz.

Hipericão

Hipericão

Arruda

Está muito associada a rituais de proteção contra o diabo, limpeza, purificação e bruxaria, diz-se que espanta as cobras e os maus-olhados, sobretudo se for plantada na entrada das casas do lado esquerdo da porta.

Era uma das ervas sagradas da Antiguidade, estando associada a Diana, deusa romana da Lua e mãe de Artemísia. Na antiga Grécia e Egito, era usada para provocar abortos e fortalecer a visão. Foi mencionada por Dioscórides e Paracelso ainda no antigo herbário assírio. Mais tarde, na Idade Média, era utilizada pelas parteiras, que nessa época eram consideradas bruxas, sendo também aplicada nos dentes para facilitar a sua extração.

Existem relatos sobre Leonardo da Vinci e Miguel Ângelo, segundo os quais estes terão afirmado que esta planta lhes aumentava as visões interiores, estimulando o “terceiro olho”.

Arruda

Arruda

Louro

Desde a Antiguidade que o louro é utilizado como símbolo de nobreza numas culturas e de imortalidade noutras. Em poções mágicas, na Idade Média, era considerado uma planta protetora e indutora de visões, a Sibila de Delfos na Grécia Antiga por exemplo sentava-se sob um teto de folhas de louro mastigando-as para assim entrar em estado de transe; nalgumas áreas da cidade de Roma, durante a peste negra, era recomendado aos cidadãos refugiarem-se junto dos loureiros para se protegerem; estudos posteriores vieram comprovar que o aroma canforado dos óleos essenciais contidos nas folhas pode ser eficaz contra as pulgas, as baratas e as traças.

Na mitologia grega, Apolo apaixonou-se por Dafne, que era uma ninfa, filha do rio Ladão que, ao sentir-se perseguida, fugiu, mas, ao perceber que este já estava quase a alcançá-la, suplicou ao pai que a transformasse – o deus-rio Ladão metamorfoseou-a então num loureiro, a árvore favorita de Apolo. Os bosques de loureiros circundavam os santuários de Apolo, e Pítia, a sacerdotisa do oráculo, mascava queimava folhas de louro em Delfos porque se lhe atribuíam qualidades divinatórias.

O louro era ainda consagrado ao deus do vinho, Dionísio, daí ser comum pendurarem-se ramos de louro na porta das tabernas, ou seria para afastar pulgas e baratas?

O seu valor simbólico é o da paz e da vitória e, segundo algumas lendas, o loureiro era a única árvore que os relâmpagos não atingiam. Coroas e ramos de loureiro foram utilizados para ilustrar moedas romanas, a deusa Niki, que significa vitória em grego, era sempre representada com uma coroa de louro na mão para colocar na cabeça dos heróis, lutadores, escritores e poetas vencedores de concursos literários; representava também Esculápio, o deus da medicina, que a tinha como protetora e detentora de propriedades medicinais.

Louro

Louro

Bétula

Está muito associada a rituais mágicos e superstições, era a árvore sagrada do deus Thor, que era o deus germânico das trovoadas, representa a chegada da primavera e da fertilidade. Ainda na Alemanha medieval, os conselhos distritais reuniam-se em bosques de bétulas e, a primeira vez que se levava o gado para as pastagens, batia-se-lhe com varas de vidoeiro (bétula) para lhes assegurar fertilidade e saúde.

Na Estónia e Lituânia, existem canções de louvor à bétula; na Lapónia e na Sibéria, acredita-se que elas sejam a residência dos duendes e de espíritos benfazejos. As primeiras versões dos Vedas indianos foram escritos em casca de tronco de vidoeiro; na antiga Irlanda, era considerada a mãe da aprendizagem e está ainda associada a várias outras crenças, como a vassoura das bruxas ou uma vassoura com que se varriam as energias dos anos velhos e se dava lugar aos novos, pendurando a vassoura atrás da porta para proteção. Ainda na Europa  medieval, construíam-se os berços dos bebés com esta madeira também como proteção.

Bétula

Bétula

Carvalho

Na Idade do Bronze, as culturas indo-europeias associavam o carvalho aos deuses do tempo, especialmente dos trovões e dos relâmpagos, talvez devido às suas fortes correntes elétricas (o carvalho é atingido por relâmpagos com maior frequência do que qualquer outra árvore).

Mais tarde foi ainda associado aos deuses da guerra e era comum invocá-lo pedindo-lhe que os inimigos fossem atingidos por relâmpagos, era também a madeira mais utilizada para construir os barcos de combate, de tal forma que, entre os séculos XVII e XVIII, as florestas de carvalhos foram dizimadas na Europa devido à construção das grandes armadas.

Na Antiga Roma, o carvalho estava associado ao deus da cura e da agricultura Silvano, sendo considerado uma árvore de grande importância em todas as quintas. Os seus ramos eram utilizados para coroar os cidadãos como reconhecimento pelos seus méritos.

Carvalho

Carvalho

 

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