Plantas

A importância da conservação de espécies face à perda de biodiversidade

conservação da biodiversidade

 

O aumento da temperatura, as variações severas nos padrões de precipitação, o aumento do nível do mar e os eventos climáticos extremos são algumas das consequências das alterações climáticas, cada vez mais sentidas, que aliadas à interferência humana, estão a afetar as espécies e seus habitats, conduzindo à perda de biodiversidade.

 

Esta mudança das condições ambientais tem vindo a afetar a sobrevivência, reprodução, alimentação e o habitat das espécies. Por exemplo, o aumento da temperatura pode levar a uma mudança no período de reprodução de uma espécie, o que consequentemente poderá comprometer o seu sucesso reprodutivo e, eventualmente, a sua capacidade de sobrevivência.

As espécies desempenham um papel basilar nos ecossistemas e na manutenção do equilíbrio ecológico, portanto, a sua conservação é também uma forma de mitigar os efeitos das mudanças climáticas. A biodiversidade é a base dos ecossistemas e fornece serviços ecossistémicos vitais, tais como polinização, purificação da água e do ar, alimentos, uso medicinal e materiais de construção.

É de realçar o papel que os jardins botânicos cumprem na conservação botânica, tanto ex situ quanto in situ, oferecendo condições favoráveis para o cultivo de espécies ameaçadas num ambiente controlado, permitindo a sua preservação e futura utilização em programas de reintrodução e recuperação de habitats naturais. Além de coleções vivas, os jardins botânicos asseguram a preservação das espécies recorrendo também a bancos de sementes e herbários.

A par dos jardins botânicos, outras entidades, como o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a Sociedade Portuguesa de Botânica (SPBotânica), cumprem um papel importante na salvaguarda das espécies ameaçadas em Portugal, promovendo a conservação da biodiversidade vegetal e o estudo das plantas. A monitorização referida é crucial, por exemplo, em áreas incluídas na Rede Natura 2000 em Portugal, quando sujeitas a pressões imobiliárias ou de implementação de projetos relacionados com a agricultura industrial de regadio.

Através de atividades como a realização de estudos e projetos de investigação, a promoção de eventos científicos, a divulgação de informação e a colaboração com outras organizações, têm vindo a contribuir para a proteção das espécies ameaçadas e para implementação de estratégias de conservação e gestão dos habitats naturais em Portugal.

 
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Destacamos as três espécies finalistas a planta do ano 2023, escolhidas pela SPBotânica, sob a temática A agricultura e as alterações de gestão florestal como ameaças ao património natural da Comporta, que pretendem dar visibilidade a este problema: a arméria-do-sado (Armeria rouyana), o piorro (Juniperus navicularis) e o marcetão-das-areias (Santolina impressa). Desafiamos o leitor a consultar a publicação de referência do ano 2020 intitulada Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental e ficar a saber mais acerca das plantas que, de acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), estão assinaladas como “extintas”, “ameaçadas” e “quase ameaçadas” em Portugal Continental.

 

ARMERIA ROUYANA DAVEAU

(ARMÉRIA-DO-SADO)

Família: Plumbaginaceae
Categoria de risco de extinção em Portugal Continental segundo critérios UICN: Quase ameaçada

A Armeria rouyana é uma planta de pequeno porte. As suas folhas longas e estreitas crescem a partir do centro. A sua floração ocorre na primavera, de abril a junho. As flores aparecem em hastes finas e retas que crescem acima das folhas, formando grupos de pequenas flores rosa, brancas ou roxas em forma de sino. A arméria-do-sado é uma planta endémica de Portugal continental, com distribuição restrita ao litoral norte alentejano, península de Setúbal, bacia inferior do rio Tejo e uma população isolada na região da Beira Litoral. Cresce em áreas abertas, em matagais psamófilos baixos e esparsos, sobre solos arenosos. A população dessa planta é composta por um grande número de indivíduos e núcleos populacionais, nas últimas décadas, o habitat dessa espécie tem vindo a sofrer perturbações e destruição de alguns núcleos populacionais.

 

SANTOLINA IMPRESSA HOFFMANNS. & LINK

(MARCETÃO-DAS-AREIAS)

Família: Asteraceae
Categoria de risco de extinção em Portugal Continental segundo critérios UICN: Pouco preocupante

A Santolina impressa é uma planta lenhosa, perene e aromática, que pode crescer até 80 cm de altura. Possui um caule principal que dá origem a vários ramos ou vários caules simples que crescem eretos. Os rebentos, pedúnculos e folhas têm uma coloração acinzentada e são cobertos por pelos. As folhas são lanceoladas e têm forma subcilíndrica, enquanto as flores da planta são de cor amarela.

Planta endémica de Portugal continental, apresenta uma distribuição restrita, sensivelmente entre Setúbal e Sines. É comummente encontrada em matagais psamófilos, crescendo em solos ácidos e arenosos, geralmente áreas que sofrem perturbações cíclicas. O marcetão-das-areias pode alcançar uma densidade alta de indivíduos e apresentar populações numerosas. Alguns dos seus principais núcleos populacionais enfrentam ameaças, sobretudo na região costeira norte do Alentejo. A expansão urbana prevista e as mudanças nos métodos de gestão dos povoamentos florestais podem degradar a qualidade do seu habitat e reduzir o número de indivíduos dessa espécie.

 

JUNIPERUS NAVICULARIS GAND.

(PIORRO, ZIMBRO-GALEGO)

Família: Cupressaceae
Categoria de risco de extinção em Portugal Continental segundo critérios UICN: Quase ameaçada

O Juniperus navicularis é um arbusto denso e tipicamente fastigiado, podendo atingir até 2 metros de altura. Folhas pequenas e pontiagudas. Floração em março. O fruto é um gálbulo de formato globoso ou piriforme, com cerca de 1 cm de comprimento, que adquire um tom avermelhado quando maduro. O piorro é um endemismo ibérico que ocorre principalmente em areias estabilizadas do litoral, na bacia do Sado e na margem sul do Tejo, e se estende até Aljezur, com um pequeno isolado populacional próximo da Figueira da Foz. Pode ser encontrado em matos que crescem sobre solos arenosos, por vezes associados a pinhais do litoral e na duna frontal. É capaz de formar zimbrais, um tipo de formação vegetal característico do litoral arenoso, que é importante para a conservação da biodiversidade costeira.

 

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Referência bibliográfica

Carapeto A., Francisco A., Pereira P., Porto M. (eds.). (2020). Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental. Sociedade Portuguesa de Botânica, Associação Portuguesa de Ciência da Vegetação – PHYTOS e Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (coord.). Coleção «Botânica em Português», Volume 7. Lisboa: Imprensa Nacional, 374 pp.

https://flora-on.pt

www.spbotanica.pt

 

Fotografias de Pedro Arsénio

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