Jardins

Jardins portugueses: as suas principais características

Latada e tanque

Num país com pouca água e muitas horas de sol, a preocupação com a frescura e com a sombra sempre foram prioritárias no jardim. As latadas e caramanchões, os tanques, fontes e caleiras, são uma presença constante do jardim. Também o armazenamento e a poupança da água são também um fator muito importante; a água é um bem escasso, precioso e indispensável para a manutenção das plantas e convém geri-lo da melhor forma.

Só nos apercebemos desta autenticidade dos jardins quando transpomos os portões, e passamos para dentro dos muros quase sempre presentes. Longe da vista de quem passa está o melhor do jardim português: com a latada sobre o tanque de rega (que evita a evaporação da água); o banco de pedra por baixo da árvore e com vista sobre a paisagem; ou caleira de pedra irregular que serpenteia e traz a água que refresca e rega.

Latada e tanque

Os jardins portugueses mesmo os mais nobres, não têm a teatralidade dos jardins ingleses, franceses ou italianos a partir do Renascimento, têm uma autenticidade e uma forma discreta e subtil de se diluírem na paisagem  e se “esconderem” atrás das casas.

Caminhos, bancos, muretes e fontes

Os caminhos normalmente são estreitos e à sombra, muitas vezes acompanham o declive e são complementados com escadas. Em grande parte dos casos uma simples latada cobre-os, outras vezes são as árvores e as suas copas. O objetivo por ser sempre o mesmo, passear-se ou estar “ao fresco”.

O que mais me encanta no jardim português é o ser despretensioso. Nos recantos mais simples, junto a uma árvore ou a um maciço de arbustos, com cadeiras e uma mesa faz-se o recanto de leitura apetecível. São jardins em que se identifica uma “desorganização organizada, são jardins livres e espontâneos, jardins com alma.

Improvisam-se bancos, muretes e fontes. Do velho se faz novo e os materiais como a pedra e a madeira são reciclados e utilizados com uma nova função. Os caminhos são muitas vezes de saibro ou gravilha, pavimentos soltos e confortáveis. Em zonas de entrada ou terraços pode haver pedra, em lajes ou em calçada para diferenciar e tornar mais nobre.

Estes são jardins que vivem de recantos, da forma como a vegetação é utilizada, normalmente junto a muros, sebes e caminhos; as bordaduras de herbáceas vivazes são as mais utilizadas, pois garantem floração todo o ano e baixos custos de manutenção.

Dálias

Plantas

A simplicidade também se encontra nas plantas utilizadas e na forma como se conjugam. As alfazemas, o alecrim, as rosas e as hortênsias são indispensáveis e a simplicidade as madressilvas, dos jarros, dos agapantos uma constante.

Já os canteiros e os alegretes são reservados para as flores de época. Estes podem variar das petúnias, aos amores-perfeitos, dos goivos às bocas de lobo, das zinias, às dálias. Os bolbos também têm o seu lugar: na primavera temos frésias, narcisos, jacintos, crocus. No verão podemos observar as dálias, gladíolos, etc. No norte as camélias e as azáleas são indispensáveis nos jardins principalmente no inverno e início da primavera.

As árvores de fruto estão sempre presentes. As laranjeiras e os limoeiros são obrigatórios pelo verde das folhas que permanece todo o ano, pela frescura da sombra e frutos indispensáveis.

São jardins com um encanto próprio, que convidam ao descanso, a conversação e contemplação. São espaços onde as árvores de fruto, as aromáticas, as hortícolas, as cores, os aromas e as texturas convivem e misturam-se formando espaços únicos.

Os vasos de todas as formas e tamanhos, de barro ou cerâmica aparecem em recantos, junto aos muros, escadas, tanques etc. As herbáceas que os acompanham dão o toque subtil de cor e garantem flores plantadas todo o ano. Estes jardins são espaços que prolongam a casa para o exterior e onde se vive cada estação com ritmo e sabor diferente.

Acabo com uma citação do Prof. Francisco Caldeira Cabral no livro “Fundamentos da Arquitetura Paisagista”. Esta resume aquilo que é o jardim português e a sua identidade.

“Como é natural num pais de luz intensa e de sol abundante, sempre apreciámos a frescura da sombra e criámos contrastes fortes de sombra e luz. As latadas junto da casa ou cobrindo os caminhos dos jardins, os caramanchões, os recantos e terraços debaixo das árvores bem copadas eram os lugares prediletos para estar e passear…”

Fotos: Thinkstock

Gostou deste artigo? Subscreva o canal da Jardins no Youtube e siga-nos no Facebook e no Instagram.

Poderá Também Gostar