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Bonsais: 10 perguntas mais frequentes

Pensar que bonsai é uma espécie em concreto ou que necessita de cuidados especiais são alguns dos mitos que caem por terra quando lemos um pouco mais desta arte. Esteja porém atento: o excesso de informação, protagonizado sobretudo pela Internet, pode trazer mais problemas que soluções.

Este artigo, composto por 10 perguntas-chave, pretende elucidá-lo um pouco mais sobre esta arte e ajudá-lo a ter árvores saudáveis e por muitos anos. Porque afinal a arte bonsai é milenar e as árvores no Japão passam de geração em geração.

1- Localização de um bonsai: Onde devo colocar o meu bonsai?

Não existem espécies de bonsai de interior, existem sim algumas espécies – como o ligustro e a Ficus retusa – que se adaptam ao interior das nossas casas. Contudo, é sempre preferível optar por ter os bonsai no exterior, mesmo que numa varanda ou pátio.

Se tivermos um local com muito sol, devemos optar por espécies como os pinheiros ou as oliveiras, sobretudo espécies adaptadas ao clima quente. Se, por sua vez, tivermos um espaço com muita sombra, podemos dedicarmo-nos a espécies que preferem, e toleram, um local com menos sol: ligustrum, azáleas, os bordos japoneses (ácer) são algumas destas espécies.

É importante que o bonsai esteja num local mais ou menos estável. As geadas não serão problema para a maioria das espécies autóctones, mas devemos ter alguma precaução se a temperatura ficar abaixo dos -5ºC.

Bonsai de quercus

2- Transplante: Que substratos utilizar? Posso usar um substrato normal de jardinagem?

Porquê usar substratos japoneses como akadama (argila cozida) e kyriuzuna (areão em decomposição)?

É normal que quando adquirimos um bonsai numa grande superfície comercial este venha em terra vegetal. Esta situação é porque, essencialmente, estes substratos retêm maior humidade e facilitam os cuidados de manutenção. Contudo, não é o ideal. A utilização de substratos inertes como a akadama e o kyriu (substratos japoneses de origem vulcânica) facilitam o cultivo por serem substratos que têm uma grande drenagem e, por serem argilas, asseguram uma facilidade de reidratação do substrato, o que não acontece com as turfas ou substratos vegetais em que o torrão fica seco.

Os substratos com base na akadama facilitam ainda as trocas catiónicas e, por conseguinte, uma boa disponibilidade de nutrientes para a planta – ao mesmo tempo que neutralizam o pH do substrato. É ainda fundamental utilizar substrato com uma boa granulometria (entre 2 e 5 mm), devendo assim colocar de lado todos os substratos que, apesar de dizerem “próprio para bonsai”, não o são.

Ainda que pareça estranho que os bonsai vivam sem matéria orgânica, apenas em “pedriscos”, como vulgarmente ouvimos dizer, é importante saber que toda a matéria orgânica provém dos fertilizantes sólidos e líquidos que se devem utilizar. Os transplantes devem ser realizados quando o substrato começa a compactar, geralmente de dois em dois anos.

Podar um Bonsai

3- Adubação: Os fertilizantes orgânicos

É importante que quando usamos adubos estes sejam de origem orgânica (e não química ou minerais). Isto potencia o aparecimento de microrganismos (flora e fauna do substrato) que ajudam à boa vitalidade dos bonsai. Estes fertilizantes, ou adubos, podem apresentar-se na forma líquida, ou sólida. Existem vários líquidos no mercado e o mais conhecido sólido é o Biogold, fertilizante japonês patenteado. É ideal realizar a fertilização dos nossos bonsai durante o ciclo de crescimento, normalmente de fevereiro a outubro.

4- Podas: Como e quando?

Existem vários tipos de poda, consoante o estádio de desenvolvimento do nosso bonsai. A mais comum é a poda de manutenção, que deve ser realizada sempre que o bonsai começa a perder a forma. Além da vertente estética, isto facilita que a parte interior da copa receba também luz, fazendo assim com que os ramos não sequem.

5- Espécies autóctones vs. espécies japonesas

Se os pinheiros-brancos japoneses ou os bordos japoneses são espécies de eleição para qualquer aficionado, surgem hoje cada vez mais fãs das espécies autóctones. Mas atenção: há espécies que se adequam – pela sua folha, facilidade em ramificar, etc. – mais facilmente ao cultivo de bonsai: damos o exemplo do zambujeiro (vulgar oliveira selvagem), o sobreiro (Quercus suber), os carvalhos (Quercus faginea, Quercus pubescens, Quercus robur…), a azinheira (Quercus ilex) ou até mesmo o pilriteiro ou espinheiro (Crataegus monogyna). Se prefere bonsai com flor e fruto, pode ainda optar pela murta (Myrtus communis) ou pereira brava (Pyrus spp.), entre muitas outras.

Um bonsai da espécie Zelkova nire trabalhado durante muitos anos onde se denota uma grande conicidade do tronco e uma ramificação bem ordenada

6- Sejam críticos! A idade de um bonsai importa mesmo?

Nas formações que lecionamos, somos muitas vezes confrontados com a pergunta “Qual a idade deste bonsai?”. E julgamos o valor não apenas monetário, mas também estético, pela idade dos bonsai. Mas é errado! A idade de um bonsai pouco diz do seu valor estético.

Lembre-se que um bonsai deve representar uma árvore da natureza e, segundo os padrões estéticos japoneses, ser uma árvore perfeita: sem feridas de poda no tronco, que denote maturidade, apresentando características de uma árvore muito antiga, como a cortiça nos sobreiros, ou a casca típica dos pinheiros. Um tronco com 4-5 cm de base, cultivado em campo aberto para ser bonsai, pode demorar apenas um ano a realizar, mas, se for em vaso, pode demorar cerca de quatro ou cinco anos: Não importa a idade, mas sim a forma e características do nosso bonsai.

7- A proporcionalidade: Regra de ouro de um bonsai

Quando começamos a praticar bonsai, rapidamente colocamos jovens plantas germinadas de semente em vaso para bonsai e lhes chamamos bonsai. Mas ter um bonsai é muito mais que isto.

Devemos ter um tronco com conicidade e existe mesmo uma regra entre o calibre do tronco na base e a altura do bonsai.

Os japoneses dizem que idealmente a altura deve ser seis vezes o tamanho do tronco na base (portanto, se tivermos um tronco de 5 cm de diâmetro, a altura do bonsai pode ser de 30 cm. Se tivermos uma relação inferior, não há problema e visualmente vai parecer que temos uma árvore muito forte, chamado sumo bonsai. Uma relação superior não é aconselhável, ainda que existam algumas exceções, como o estilo literati.

Um exemplar da espécie juníperos (zimbro) que denota idade pela madeira morta presente no tronco. Apesar de aparentar muitos anos de cultivo, importa muito mais os anos que a árvore aparenta ter

8- Cada espécie de bonsai, cada substrato? Cuidados em particular?

Trabalhamos com mais de 25 espécies diferentes. Imagine o que seria particularizar cada substrato. O substrato aconselhável para todas as espécies folhosas é de 70 por cento akadama e 30 por cento kyriuzuna, para as coníferas de 60 por cento akadama e 40 por cento kyriuzuna e para espécies acidófilas, como as azáleas, 100 por cento kanuma. Isto permite que tenhamos um cultivo uniforme independente das espécies com as quais trabalhamos.

Na altura de realizar podas, há, sim, alguns cuidados a ter em conta: umas gostam de ser podadas ao longo do ciclo de crescimento e outras espécies, durante o período de letargia invernal…

9- Consulta de sites: cuidado!

Na hora de cuidar de bonsai, a Internet aparece-nos como uma das principais ferramentas para tirarmos as nossas dúvidas e encontrar respostas para os nossos problemas. Tenha cuidado: ler opiniões de um bonsaísta brasileiro ou do Norte da Europa é totalmente diferente, pois têm ciclos de crescimento e climas muito distintos do clima português.

Sempre que possível, aconselhe-se com bonsaístas que tenham condições de clima semelhantes ao seu. Inclusive o clima japonês é muito distinto, com um índice de humidade no verão de quase 80 por cento, enquanto em Portugal não supera os 20-30 por cento.

Azalea satsuki, espécie que prefere um pH ácido e que por isso se usa kanuma

10- Bonsai: Árvore em vaso

Não compliquem! Não há maneira de conseguirmos ter bonsai sem um bom cultivo e a estética ocupa uma percentagem reduzida: sem uma árvore saudável, não podemos ter bonsai. Por isso costumamos dizer que mais que falar com as árvores é preciso escutá-las.

O cultivo diário e a atuação proativa permitem-nos diagnosticar problemas antecipadamente, eliminar as pragas assim que aparecem, e potenciar o ciclo de crescimento com o auxílio de fertilizantes. As vitaminas “de bonsai” não fazem milagres e pouco ajudam quando o bonsai está muito debilitado.

 

Fotos: Thinkstock

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