Jardins

A importância dos lagos biológicos

Um lago é uma excelente adição ao jardim. Para além de introduzir a água na paisagem, tem muitas funções ecológicas no próprio espaço envolvente. A presença de um ponto de água no jardim altera a forma como a vida selvagem interage com o espaço, contribuindo significativamente para o aumento da biodiversidade. O lago traz sons, cheiros, e movimentos novos ao jardim.

Muitas formas de vida dependem da água para uma das suas fases de desenvolvimento, como os anfíbios e alguns insetos.

Estes insetos passam a ser muito frequentes no jardim assim que têm à disposição um lago onde possam pôr os seus ovos e onde as suas ninfas possam crescer. Os adultos vão voando por perto enquanto se alimentam de pequenos insetos voadores.

A presença de água no jardim é enriquecedora do ponto de vista estético. Traz beleza, som, aroma e movimento ao jardim. E, do ponto de vista ecológico, uma vez que atrai uma grande variedade de vida selvagem.

Princípios dos lagos biológicos

É perfeitamente possível ter um pequeno lago de jardim com água cristalina sem ter filtragem por bombas ou filtros que consomem energia, ou seja, um lago biológico em que a água se mantém limpa apenas pela atividade biológica dos seus habitantes. Para o conseguir, é necessário algum conhecimento e respeitar algumas regras, podendo qualquer pessoa fazê-lo com sucesso.

É necessário pensar que tipo de lago se pretende, caso tenha em mente lagos para peixes grandes como as carpas Koi, este tipo de lago não é o ideal. Peixes grandes geram grandes quantidades de detritos que o lago biológico terá dificuldade em reciclar. Este sistema funciona melhor com lagos pequenos para alguns peixes pequenos, rãs, e vida selvagem. Deverá ser um lago com vários patamares de profundidade, devendo a zona mais funda ter cerca de 80 cm. Isto é muito importante uma vez que no inverno as zonas mais fundas mantêm temperaturas mais elevadas que a superfície e é nessa zona que os peixes e outros animais se refugiam durante o tempo mais frio.

A impermeabilização

O lago deverá ser impermeabilizado com tela própria para o efeito, devendo a decoração do lago ser feita com o cuidado de proteger a tela do sol. Desta forma, a tela durará mais tempo. Na margem, a tela deverá ser coberta por pedras ou troncos para dar um aspeto natural ao lago.

A coisa mais importante a compreender para se ter um lago biológico com sucesso é o ciclo de nutrientes. No solo existem inúmeros organismos que retiram, trocam e transportam a matéria orgânica de um lado para o outro. Não se corre o risco de haver demasiada matéria orgânica. Mas num lago de jardim, a transferência de matéria orgânica é travada pela tela que usamos para manter a água no lugar. Para se ter água limpa, o lago tem que estar em “dieta de nutrientes”, ou seja, a entrada de nutrientes na água tem de ser menor que a saída. A entrada de nutrientes não controlamos, é feita através da fotossíntese das plantas, de detritos trazidos pelo vento, por animais, etc. A saída de nutrientes podemos controlar, e em muito contribuem as nossas escolhas de plantação.

A filtragem

A filtragem é inteiramente feita por plantas aquáticas e existem três tipos a considerar: as plantas de margem; as de superfície; e as plantas oxigenadoras. O lago deverá ter uma camada de areão no fundo, no qual se deverão plantar as oxigenadoras. Estas plantas são grandes produtoras de oxigénio. Em dias de sol, é mesmo possível ver bolhas de ar sair das folhas em direção à superfície do lago. São também muito importantes porque no verão crescem bastante rápido, retirando grandes quantidades de nutrientes da água.

Esta absorção de nutrientes faz com que as algas microscópicas, que causam a água verde de lagos estagnados, não consigam estar presentes de forma descontrolada. Além disso, muitas oxigenadoras produzem compostos algicidas que dificultam o desenvolvimento de algas. Exemplos de oxigenadoras facilmente acessíveis são a Vallisneria spirallis, Egeria densa, Ceratophyllum demersum. Devemos cobrir pelo menos metade do fundo do lago com oxigenadoras para garantir uma competição eficaz com as algas.

Plantas de superfície

Estas são bastante importantes porque reduzem a quantidade de luz solar que atinge o lago, ajudando a controlar as algas.

Num lago de jardim, as plantas de superfície mais comuns são os nenúfares e os lótus. Estas plantas ainda produzem flores muito bonitas que acrescentam cor ao lago. Os nenúfares têm um rizoma grande do qual rebentam flores e folhas. Este rizoma deverá ser plantado no fundo do lago, contido por um vaso ou solto. Quando o rizoma está contido, é mais fácil gerir a planta, sendo possível mudá-la de local dentro do lago, por exemplo. Quando está solto, as raízes do nenúfar rapidamente cobrem grande parte do lago e o crescimento da planta é muito mais rápido.

Plantas de margem

O lago deve estar rodeado por plantas de margem como os papiros ou juncos, que servem de barreira natural contra detritos trazidos pelo vento e de abrigo aos animais que habitam o lago. Estas plantas preferem zonas permanentemente alagadas, mas pouco profundas, e desempenham um grande papel na remoção de nutrientes da água.

Relativamente à manutenção do lago, existem algumas coisas a considerar para manter a vegetação controlada e a água límpida. As oxigenadoras deverão ser podadas ou cortadas regularmente durante a primavera e verão. Este corte frequente impede que as oxigenadoras se alastrem descontroladamente e estimula o crescimento novo que absorve muitos nutrientes da água. Este corte feito às oxigenadoras é a única maneira de retirar os nutrientes acumulados do lago. De outra maneira, acumulam-se no fundo e em poucos anos a capacidade do lago será bastante menor. Os restos obtidos com o corte devem ser introduzidos no composto uma vez que normalmente são muito ricos para as outras plantas.

Os nenúfares perdem as folhas e flores no inverno pelo que é uma boa ideia fazer uma limpeza geral ao lago no início da primavera. Durante o tempo quente, estas plantas produzem muitas flores e folhas que têm uma duração relativamente curta. O melhor a fazer é ir arrancando as folhas e flores velhas à medida que vão surgindo. Desta forma impede-se a acumulação de demasiados detritos no fundo. De dois em dois anos, poderá ser uma boa ideia levantar os nenúfares, podar as raízes e dividir o rizoma. Desta forma poderão obter-se várias plantas.

Após a montagem e plantação do lago, este pode ficar com água verde, mas não desespere, é perfeitamente normal. Acontece porque no início, antes de as oxigenadoras começarem a crescer, as algas conseguem ter uma janela de oportunidade para se desenvolverem. Esta situação é normalmente controlada pelo tempo, basta aguardar.

A fauna espontânea

Em lagos biológicos, a fauna tende a surgir de forma espontânea. É comum que ao fim de algum tempo se instalem rãs, tritões e salamandras e que os sapos usem o lago como local de desova. As aves e os répteis também descobrem rapidamente o novo ponto de água e passam a visitá-lo com regularidade. Caso se pretendam peixes, convém considerar espécies de pequeno tamanho e que suportem as temperaturas do inverno em Portugal.

Fotos: Thinkstock

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