Plantas Ornamentais

Ornamentais na História e na sociedade

Durante o século XV, Portugal foi a nação europeia que mais investiu nas viagens oceânicas que conduziram à (re)descoberta dos arquipélagos da Macaronésia (Madeira, Açores, Canárias, Cabo Verde), assim como à exploração da costa ocidental do continente africano.

Esta aventura épica tinha vários objetivos, entre os quais a necessidade de encontrar recursos naturais que fossem uma mais-valia económica para o Reino. Este desiderato por plantas e produtos exóticos conduziu os portugueses até à mítica Índia, na demanda das preciosas especiarias, cujo comércio, ao longo do século XVI proporcionou a Portugal um dos períodos mais prósperos da sua história multissecular.

Em 1492, seis anos antes da chegada dos portugueses à Índia, Cristóvão Colombo, ao serviço dos monarcas espanhóis, havia aportado às Caraíbas, e aí procurara, em vão, as especiarias que os europeus conheciam e muito desejavam, pois Colombo acreditava estar próximo das terras fabulosas que os europeus imaginavam existir na Ásia. Quando a tripulação encontrou frutos vagamente semelhantes à pimenta, não hesitou em chamar-lhe pimenta e, assim a espécie Pimenta dioica (L.) Merr. tomou o nome de pimenta da Jamaica. O apreço que os europeus tinham pelas especiarias estava não só relacionado com a sua própria natureza fragrante mas também porque se acreditava que poderiam provir do Paraíso Terrestre descrito na Bíblia. A cultura das especiarias nunca foi introduzida na Europa devido à inexistência de condições edafoclimáticas que permitissem o seu desenvolvimento.

As viagens de Colombo e de Vasco da Gama marcaram o início de uma troca de plantas intercontinental, que teria, a longo prazo, uma influência dramática na economia mundial porque algumas plantas envolvidas nessas trocas (milho, batata, tabaco, tomate, pimentos, batata-doce, mandioca, quineira, etc.) viriam a ser utilizadas como base económica de países e regiões nas quais foram introduzidas.

Josephine de Beauharnai

Doutrina das Assinaturas

No século XVI e XVII fundaram-se os primeiros jardins botânicos europeus (Pisa, 1544, Pádua, 1545), devido à necessidade de se conhecerem as propriedades das plantas que chegavam à Europa, em especial as suas potenciais aplicações medicinais. Havia uma corrente de pensamento que acredita na teoria de que Deus colocara sinais nas plantas que, com o devido estudo, poderiam ser decifrados. Deste modo, compreender-se-ia a aplicação específica para a qual a planta havia sido criada – era este o fundamento da conhecida Doutrina das Assinaturas.

Durante os séculos XVI a XVIII, a introdução de novas plantas na Europa foi também motivada pela procura de novas espécies ornamentais que pudessem ser cultivadas nos hortos e jardins dos monarcas, nobres e naturalistas que se interessavam pela Exotica Naturalia trazida pelas expedições ultramarinas. Um exemplo clássico é o tomateiro (Solanum lycopersicum L.), que foi inicialmente cultivado como planta ornamental, com frutos pequenos e amarelos, antes da sua cultura ser direcionada para a alimentação humana. Alguns idiomas europeus ainda conservam as designações que a planta então tomou, por exemplo, o italiano pomodoro (maçã dourada) e o francês pomme d’amour (maçã do amor).

Dragoeiro

Dragoeiro

Quando os portugueses chegaram aos arquipélagos da Macaronésia encontram uma vegetação subtropical relíquia (Laurissilva) que outrora cobrira vastas áreas do Sul da Europa, daí desaparecendo aquando das últimas glaciações. Uma das plantas mais emblemáticas desta flora exótica é o dragoeiro (Dracaena draco L.) introduzido na Europa como ornamental. O jardim do Convento de Nossa Senhora da Graça, em Lisboa, tinha um exemplar extraordinário que impressionou o naturalista holandês Carolus Clusius, e cuja descrição publicou na obra Rariorum aliquot stirpium per Hispanias observatarum historia (1576). O dragoeiro pode ultrapassar os 15 metros de altura e é conhecido pela sua resina encarnada, semelhante ao sangue humano, utilizada como hemostática e também como um dos ingredientes do verniz que os luthiers aplicam nos instrumentos de corda (violinos). Embora seja uma espécie nativa da Ilha da Madeira, quase todos os dragoeiros aí existentes foram plantados porque o coberto vegetal primitivo foi muito alterado devido à ação humana.

Quando os europeus chegaram às Canárias, ao contrário do que ocorreu nos outros arquipélagos da Macaronésia, encontraram-nas habitadas por uma população autóctone de origem berbere (os guanches). Por razões hoje desconhecidas, este povo terá sido esquecido quando cessaram os contactos marítimos com a população africana da qual era originário. Os guanches utilizavam a resina do dragoeiro para mumificarem os seus líderes políticos e religiosos.

Dália

A popularidade das dálias

Outra espécie muito comum em Portugal, também originária da Macaronésia, é a palmeira-das-Canárias (Phoenix canariensis Chabaud) que, como o próprio epíteto específico indica, é nativa das Ilhas Canárias.

Esta palmeira, muito utilizada como ornamental, poderá ter sido introduzida em Portugal durante o século XVI, embora não existam registos que permitam afirmá-lo pois era, frequentemente, considerada uma variedade da palmeira-tamareira (Phoenix dactylifera L.). Atualmente, no nosso país, uma praga de escaravelhos-vermelhos (Rhynchophorus ferrugineus Olivier) está a dizimar as palmeiras-das-Canárias, em particular no Alentejo e Algarve.

Durante o século XVIII, foram introduzidas, na Europa, muitas espécies com uso exclusivamente ornamental, como as dálias (Dahlia). No último quartel do século XVIII, os bolbos de dálias chegaram à Europa por intermédio dos espanhóis e dos franceses, vindas do México, onde haviam sido muito valorizados pelos Aztecas. O lendário jardim do Castelo de Malmaison, propriedade particular da imperatriz Joséphine de Beauharnais e de Napoleão Bonaparte, foi um dos primeiros locais, na Europa, onde se cultivaram os bolbos de dálias. Nas décadas de 1830-1840, a popularidade das dálias atingiu níveis muito elevados, contribuindo para aumentar o prestígio social dos horticultores e dos amadores que as propagavam.

Tulipomania

Algo idêntico, mas com menor dramatismo, ao que ocorrera com as túlipas, na Holanda, no início do século XVII. Esta foi, provavelmente, a situação mais peculiar da história da horticultura europeia renascentista: a tulipomania, que assolou os Países Baixos durante a década de 1630.

As tulipas terão sido introduzidas na Holanda a partir da corte imperial Otomana, sediada em Constantinopla e, rapidamente, se tornaram muito populares. Algumas variedades, como, por exemplo, o cultivar ‘Semper Augustus’ tornaram-se artigos de luxo. Muitos investiram todos os seus recursos nos bolbos de tulipas e no seu comércio, até que, em 1637, a confiança neste mercado foi abalada e o preço caiu subitamente – o primeiro caso documentado de uma bolha especulativa baseada em plantas.

Semper Augustus Tulip 17th century

Outra planta comum nos jardins e áreas expectantes das cidades é a piteira (Agave americana L.), oriunda do México e sobre a qual existem documentos que referem o seu cultivo no Jardim Botânico de Pádua, em 1561. Esta planta floresce apenas uma vez durante o seu ciclo de vida (10 a 30 anos) e morre após este processo, que esgota as suas reservas nutritivas. Contudo, o seu genoma permanece vivo porque surgem novas plantas na base da planta-mãe, através de um processo de multiplicação vegetativa.

Quando plantas exóticas são introduzidas em habitats nos quais não têm predadores naturais e, simultaneamente, encontram condições favoráveis à sua naturalização, podem reproduzir-se sem controlo e constituir uma ameaça à biodiversidade nativa dos habitats que as recebem. Este é o caso da Opuntia ficus-indica (L.) Mill. (figueira-da-Índia) introduzida na Europa algures entre 1548 e 1570 para a cultura das cochonilhas (Dactylopius coccus Costa) destinadas à obtenção de um corante escarlate para tingir tecidos. Estas plantas podem tornar-se invasoras, se não existirem medidas que controlem a sua expansão.

Como curiosidade, refira-se que, no início do século XX, os seus espinhos (folhas modificadas) foram utilizados como agulhas de gramofones. Novas plantas ornamentais continuam a ser introduzidas nos mercados europeus, em especial plantas tropicais que se encontram bem adaptadas a baixa luminosidade e moderada/elevada humidade, condições que encontram no interior das habitações humanas. As suas cores e formas são mais-valias que enriquecem o nosso quotidiano e deslumbram os nossos sentidos.

Fotos: Luís Carvalho

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